terça-feira, 9 de setembro de 2014

III Congresso Internacional de Futebol - 2014


III Congresso Internacional de Futebol

Semana passada tive o prazer de estar mais uma vez presente ao Congresso Internacional de Futebol em Porto Alegre, que tem como mentor o professor e preparador físico Márcio Correa. Mais uma vez o congresso ficou marcado por palestras de grande valor científico e metodológico. Foram tratados vários temas, tais quais são de extrema importância para o momento que o futebol brasileiro se encontra. Como o calendário do futebol profissional, a modernização dos estádios, o jogo de futebol como espetáculo, o legado que a copa deixou para o futebol brasileiro e principalmente a metodologia que vem sendo aplicada em nosso país. Não apenas dentro das quatro linhas, mas também fora delas.

O foco principal do Congresso e que vem sendo discutido a algum tempo, principalmente nas categorias de formação dos clubes, é a metodologia de trabalho aplica hoje no Brasil.
Depois da amostragem Copa do Mundo FIFA 2014 aonde seleções de pouca expressão no cenário mundial equilibraram forças com grandes potências, nos leva a crer que em termos metodológicos estamos devendo, levando em consideração todo nosso histórico dentro da maior competição futebolística do mundo.

No III Congresso Internacional ficou marcado por trazer profissionais de pouco destaque no futebol nacional, mas que trazem uma “nova” perspectiva metodológica, que se baseia simplesmente no jogar, e na complexidade que tal fenômeno oferece. Nomes como Bruno Pivetti que atualmente é auxiliar técnico do Guaratinguetá Futebol Ltda e Rodrigo Leitão que hoje é o técnico da Sub-17 do Corinthians. Ambos falaram sobre a aplicabilidade de seus trabalhos, baseado na Periodização Tática. Metodologia que tem como berço a Universidade do Porto em Portugal e como mentor o português Vitor Frade.  O método chamado sistêmico, não por basear seus trabalhos no sistema da equipe, mas sim por enxergar o jogo como um sistema, como um todo. O sistema é um conjunto de partes interagentes e interdependentes que, conjuntamente, formam um todo unitário com determinado objetivo e efetuam determinada função. E dessa forma baseia-se o treino. Tendo como principal objetivo o comportamento tático coletivo da equipe, deixando em um segundo plano outros aspectos inerentes ao jogo como os componentes técnicos, físicos e psicológicos.

Levando em consideração esse fato de termos treinadores emergentes como palestrantes em um congresso internacional de futebol, dentro do “país do futebol” que devemos refletir aonde estamos e aonde queremos chegar.

Isso não é uma crítica ao congresso, muito menos aos palestrantes, mas sim a todos que ainda insistem em ver barreiras entre o campo e a sala de aula, aos estudos não só ao futebol, mas também ao desenvolvimento humano. Muito conhecimento vem sendo produzido, novos métodos sendo aplicados, pequenos clubes estão fazendo ótimos trabalhos nas categorias de formação por todo o Brasil, mas as grandes referências tem podado esse crescimento pelo puro e simples desconhecimento, e também por vaidade. O futebol tem evoluído e essa evolução passa pelos profissionais que atuam nas diretrizes do trabalho, e essa mudança deve começar por ai.

Não sou defensor da aplicação da Periodização Tática no Brasil em sua plenitude, pois acredito que temos uma cultura própria e que como tal deve ser respeitada. Mas muitos fatores podem ser e devem ser aplicados ao nosso futebol. A Evolução da comissão técnica hoje, passa por esse caminho, treinadores com uma visão mais holística, vendo o jogo como um todo, e não apenas por partes. O perfil do preparador físico também mudou, pois a preocupação não deve ser apenas com questões fisiológicas, mas sim com o desenvolvimento do atleta dentro das idéias do treinador e torná-lo apto para desempenhar tais funções, em âmbito comportamental, não apenas físico. E claro sem abrir mão de todos os benefícios que as metodologias de treinamento físico nos trouxeram até o presente momento, tais como controles de treino, como intensidade e sobrecargas. Visando o desempenho coletivo da equipe.

Bom, fica aqui meus parabéns aos organizadores do congresso que estimularam muito a forma de pensar, não apenas de quem está diariamente no campo, mas principalmente de que tem a incumbência de coordenar todo um processo de formação. Seja de uma equipe de base, ou profissional.



domingo, 5 de fevereiro de 2012

AS TRANSIÇÕES NO FUTEBOL

Por Lucas Gonçalves


Olá pessoal, este texto inicia uma série de parcerias que pretendo fazer, trazer aqui para nosso espaço outras idéias e assim enriquecer nossas discussões. Nesta primeira postagem, trago a vocês um texto do técnico Lucas Gonçalves, treinador de futebol. Sua experiencia como profissional da área venho no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, aonde passou durante 5 anos por 4 categorias no clube, sempre recebendo promoções e destaque.EEm dezembro de 2010, Lucas transfere-se juntamente com o técnico Zaluar para a Associação Desportiva Cabofriense, para disputa do Campeonato Carioca 2011. Por lá, permaneceram durante 2 meses. Já no ano de 2011, o Porto Alegre Futebol Clube voltou a fazer parte do seu histórico profissional. O clube o contratou novamente como auxiliar técnico da Categoria Junior.

Além dessa breve currículo, tive a oportunidade de trabalha com ele no Grêmio, e juntos formamos muitos conceitos, dividimos e compartilhamos idéias de trabalho. Quem quiser conhecer mais o trabalho do técnico Lucas Gonçalves é só acessar o site http://www.tecnicolucasgoncalves.com/

AS TRANSIÇÕES NO FUTEBOL

"Os princípios de jogo e os sub princípios de jogo são comportamentos e padrões de comportamento que o treinador quer que sejam revelados pelos seus jogadores e pela sua equipa nos diferentes momentos do jogo. Esses comportamentos e padrões de comportamento quando articulados e entre sí evidenciam um padrão de comportamento ainda maior, ou seja, uma identidade de equipa ao qual denominamos de organização funcional. " (Guilherme Oliveira, 2003)

Antes de explanar minhas idéias, faz-se necessário entender alguns conceitos citados pelo autor acima ao denominar organização funcional. Quando falamos em diferentes momentos do jogo, sabemos que o jogo está divido em 4 deles os quais entendo, de modo geral, desta maneira:

  1. Organização Defensiva : momento em que a equipe não possui a bola e através de seus princípios e sub princípios organiza-se para evitar gol da equipe adversária.
  2. Organização Ofensiva: momento em que a equipe possui a bola e através de seus princípios e sub princípios organiza-se para marcar gol na equipe adversária.
  3. Transição Defensiva-Ofensiva: exato instante em que a equipe recupera a bola até o momento em que está organizado ofensivamente, através de seus princípios e sub princípios.
  4. Transição Ofensiva-Defensiva: exato instante em que a equipe perde a posse de bola até o momento em que está organizado defensivamente, através de seus princípios e sub princípios.


No futebol atual a importância das transições está cada vez mais presente dentro do modelo de jogo em cada equipe. Em geral, a transição determina o quanto a organização em seqüência será eficiente. Mais do que isso, uma equipe pode dentro de uma partida antecipar algumas ações ou metas de seus princípios através de transições bem definidas.


Porém, o que tenho visto de modo geral nos jogos do Campeonato Gaúcho deste ano, tem me surpreendido de forma negativa em relação a este assunto. Poucas equipes realmente demonstram um padrão de comportamento no que se refere a transições. Isso tem acarretado em dificuldades para as mesmas quando estão organizadas defensiva e ofensivamente. Como consequência, os jogos tem sido muitas vezes desinteressantes no plano tático.

Como não existe padrão nestes momentos, acabamos nos deparando com uma grande mistura de princípios dentro de uma mesma transição. Muitas vezes essa variedade faz com que uma ação seja completamente oposta a outra, gerando um conflito de idéias dentro de um mesmo modelo de jogo. As situações mais vistas nas partidas que tenho assistido até então são:

Transição Defensiva-Ofensiva: erro na escolha da jogada principalmente quando se está sofrendo pressão na zona da bola. Normalmente a opção adotada é de acelerar a jogada de forma vertical, além de não trocar de corredor. Quando a situação é inversa, as equipes não tem aproveitado para dar velocidade ao passe e colocar-se em superioridade numérica.

Transição Ofensiva-Defensiva: divergência de escolhas entre setores da equipe.Enquanto algum setor opta por pressionar imediatamente a zona onde a bola foi perdida, outro setor decide organizar-se defensivamente. Fica claro que estas decisões não são pré-determinadas em treinamentos ou palestras. Isso fica mais preocupante quando as discordâncias são de indivíduos do mesmo setor. Além disso, o simples ato de transição de alguns jogadores (normalmente meias ofensivos e atacantes) não acontecem. Como consequência a equipe fica descompacta e com um menor número de jogadores participando da organização defensiva.

Quero deixar claro que as análises em questão não evidenciam a falta de transições nos jogos, mas muito pelo contrário. O que temos visto são jogos com uma enormidade de momentos de transição. A crítica é como os times estão agindo em relação a isso, mostrando enormes dificuldades. O que deixa isso muito marcante aos nossos olhos são aqueles instantes onde as equipes se repartem em duas e os jogos viram praticamente seqüência de contra ataques desorganizados. Acima foram citadas apenas algumas "desorganizações" vistas. Isso nos faz refletir onde estaria a origem do problema. Poderia ser a falta de tempo que as equipes tem para se preparar? 

Por outro lado então deveriam reavaliar os planejamentos e elencar prioridades, já que esse problema é por muito tempo sabido no futebol brasileiro. Seria então a falta de entendimento dos atletas aos modelos de jogo? Então deveríamos talvez melhorar a didática de treinamentos e rever os estímulos dados aos jogadores no período de base. Seria a falta de importância dada pelos comandantes a estes dois imprescindíveis momentos do jogo? Ou o problema é mais grave e os treinadores não estão capacitados o suficiente. Fica então a reflexão para discutirmos e identificarmos dificuldades. 

Só assim poderemos construir novos conhecimentos e evoluir na mesma velocidade do futebol atual.

Lucas Gonçalves - Técnico de Futebol

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

MUDANÇA DE FILOSOFIA NO FUTEBOL DE BASE

Acompanho o professor Fabio a algum tempo, e temos uma conjunção de idéias muito grande, este texto  vem ao encontro do que tenho postado nos últimos meses aqui no Performance, espero que gostem e acompanhem o trabalho do professor Fábio Aires da Cunha - http://www.fcunha.com.br


MUDANÇA DE FILOSOFIA NO FUTEBOL DE BASE

Fabio Aires da Cunha
O exemplo do Barcelona pode nos ensinar uma lição. Quando Guardiola, técnico da equipe catalã, disse em entrevista coletiva após a final do mundial interclubes: “... o que tentamos é passar a bola a um companheiro o quanto antes possível... o que o Brasil fazia, segundo o que contam meus pais e meus avós, desde sempre.”, nos transmite um misto de orgulho e vergonha.

Se os espanhóis, que unanimemente jogam o melhor e o mais bonito futebol apresentado por uma equipe no mundo, mostram um jogo de toque de bola, passes rápidos e jogadas bonitas, por que nenhuma equipe brasileira ou a Seleção conseguem repetir essa forma de jogar?

A desculpa de que o Barcelona é um clube rico e, assim, contrata grandes jogadores, aqui não serve, pois 8 ou 9 jogadores do time titular foram formados em sua categoria de base.

Alguns usarão como desculpa que a equipe catalã joga há muitos anos junta e então os jogadores tem um bom entrosamento. Isso é um aspecto que ajuda, com certeza, mas que sozinho não justifica esse resultado.
A grande explicação é a formação de base.

O clube espanhol possui uma filosofia clara e bem definida para a formação dos seus atletas. No lado técnico a preocupação é formar um atleta com qualidade técnica, com os fundamentos bem desenvolvidos e afirmados. No aspecto tático o objetivo é montar equipes coesas que mantém a posse de bola, que troquem passes em velocidade e, principalmente, jogadores solidários e comprometidos com o coletivo.

Não quero aqui valorizar o Barcelona, mas sim a filosofia adotada, uma filosofia que se preocupa com a formação completa do jovem atleta e não com o resultado imediato.

O mais incrível é que o trabalho bem feito, bem planejado, que respeita o desenvolvimento maturacional, que respeita as características de cada faixa etária, acaba trazendo, também, resultados esportivos a curto e médio prazo.
Devemos mudar a filosofia da formação de base no Brasil. Os clubes devem primeiro colocar dirigentes capacitados que não pressionem jogadores e técnicos por resultados esportivos. Em segundo lugar, devem contratar técnicos e demais membros da comissão técnica com qualificação profissional, que entendam de crescimento, maturação e desenvolvimento motor e que trabalhem os garotos pensando no futuro como atletas e cidadãos. Em terceiro lugar, o clube deve investir na infraestrutura e nas condições para que os treinamentos ocorram de forma científica e profissional, pois a estrutura é fundamental.

Destaco que desses pontos o principal é a qualificação dos profissionais que atuam no dia a dia com os jovens atletas. Necessitamos de técnicos mais qualificados nas categorias de base.

Quando o futebol brasileiro se atentar para esses pontos e para essa realidade, voltaremos a revelar craques em quantidade. Não podemos mais viver de um ou outro grande jogador que surja mais por sorte do que por trabalho bem feito.

Com isso, ganham os clubes, a Seleção, os torcedores, os atletas e o futebol brasileiro. Poderemos assim ver não apenas um Barcelona, mas sim inúmeros times apresentando um futebol vistoso e competitivo como vimos na manhã daquele 18 de dezembro de 2011 durante a final do mundial interclubes.

Acessado em 19/01/2012
http://www.fcunha.com.br/artigo/Mudan%C3%A7a%20de%20filosofia%20no%20futebol%20de%20base.htm

 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A culpa é do preparador físico

Pode parecer oportunimo, mas o resultado após o apito final do mundial de clubes de 2011 já era esperado por um grande números de pessoas, não torcedores comuns, mas sim pessoas que conseguem visualizar que o futebol brasileiro está parado no tempo quando o assunto é organização tática e metodologia de treino e formação de jogadores. Final do jogo do dia 18/12/2011, vimos o Barça fazer o que sempre faz, momentos do jogo bem definidos, agressividade na marcação, compactação, pressão sobre o portador bola em todos os setores do campo, e quando retomam a posse o campo fica imenso. E vimos também o Santos tentar fazer o que faz aqui no Brasil, time sem compactação, jogadas ofensivas baseadas em um ou dois jogadores e nenhuma pressão na bola. O resultado de Barcelona 4x0 Santos é a total realidade da diferença entre o Brasil e a Espanha e outros países europeus. Mas porque?

Fonte www.flamengorj.com.br

O Brasil é o país que mais possui títulos mundiais em copas do mundo, somos a única seleção que esteve presente em todas as copas, somos o pais que mais exporta jogadores para o mundo todo, e ainda todos os anos temos jogadores brasileiros entre os melhores do mundo, nos últimos anos um pouco menos, mas quase sempre estão presentes. Todos estes fatores contribuiriam para que outros países evoluíssem em termos táticos e principalmente em termos metodológicos. Mas será que nosso futebol parou no tempo? Não, seguindo uma linha educacional nosso futebol andou junto com evolução de nossos professores, e na década de 80 um membro da comissão técnica ganha força, o preparador físico. Seguindo a evolução da fisiologia, e principalmente a fisiologia do exercício os componentes físico se tornaram a principal preocupação de muitos clubes no Brasil e no mundo. Tivemos a resistência aeróbia, corridas contínuas, treinos de força, intervalados o VO2max, limiares de lactato, plataformas de força, CK, ureia, TGO, GPSs, e....... Uma série de controles físico, que seguindo um modelo Russo até hoje ditam os rumos da periodização no Brasil. Está errados? Não, a preparação física evoluiu, muito, a medicina esportiva evoluiu muito, a nutrição evoluiu, bastante, a fisioterapia evoluiu, mas e os aspectos táticos? 

Para mim fica claro, todas essas áreas cresceram por que os profissionais destas áreas evoluíram, buscaram conhecimento, estudaram as necessidades dos jogadores, analisaram as especificidades de cada função, lesão e tipo de nutrição para determinado momento da competição e objetivo, mas e a parte tática. Tivemos por muito tempo, e ainda temos "profissionais" sem capacitação a frente de equipes, a frente de jovens jogadores que precisam de muita informação, e não apenas de gritos  de "vamo" e "vamo".

Mas então qual a saída? Muitos acham que devemos apagar nossa história, e começar do zero, sendo mais direto, alguns radicais querem colocar a culpa da irresponsabilidade e incompetência de treinadores e dirigentes amadores nos preparadores físicos, pois estes tem como conceito de que o treinamento físico, desadapta os jogadores de uma percepção que é coletiva. Na verdade não é a preparação física que trava uma melhora metodológica brasileira, mas sim a falta de uma construção tática ao longo dos anos de formação nas categorias de base dos clubes. Penso que devemos agora, aproveitar toda a evolução das áreas biológicas (Física, Fisiologia, Fisioterapia, Nutrição e Psicologia) para tentarmos alcançar melhores resultados em níveis táticos, que por muitos anos não apresenta evolução alguma.

O Brasil parece ter acordado, parece ter percebido que além de nossos talentos individuais, podemos ter um pouco mais de valor coletivo, e quem sabe os treinadores podem aprender mais com seus colegas fisiologistas, fisioterapeutas e também com seu fiel escudeiro, o preparador físico. Sem contar que temos grande treinadores brasileiros que iniciaram como preparadores físicos, posso citar, Carlos Alberto Parreira, Otacílio Gonçalves e Celso Roth são alguns exemplos. Se muitos treinadores tivessem a metade da organização dos preparadores físicos, fisiologistas, nutricionistas e fisioterapeutas o futebol brasileiro estaria muito mais a frente, e evoluído.


Devemos construir uma metodologia que atenda todas as necessidades dos nossos atletas, necessidades que são culturais. Aliás, esse é o segredo dos nossos super talentos, nossa cultura, nossos filhos saem da maternidade vestidos com as cores de dos nossos times de coração, e com o primeiro brinquedo dentro da sacola das fraldas, a bola.






segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Era a isso que eu me referia!




A algum tempo algumas pessoas vêm tentando abrir os olhos do meio futebolistico brasileiro sobre as mudanças que estão acontecendo no mundo do futebol. Um resultado como o da final do mundial de clubes era necessário para que os olhos de todos podessem ver que não podemos mais depender de individualidades. Mas, por favor, a solução não é tirar xerox do Barça.


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Pequenos Clubes, Grandes Resultados.

Final da SC CUP 2011 Audax-SP x Atletico-PR. É cada vez mais comum ver em finais de competições de base, nomes novos, nomes que a torcida de grande clubes não estavam acostumados. Em muitos torneios de categorias de base os grandes clubes, clubes de massa, que sempre tiveram hegemonia de conquistas e até mesmo de participação em grandes torneios de base. Clubes pequenos, ou clubes formadores vêm ocupando um espaço de destaque no cenário de formação de jogadores no Brasil e no mundo. Clubes estas que possuem estrutura, objetivos e em alguns casos metodologia de trabalho, muitas vezes projetos de formação baseados em clubes europeus.

O futebol brasileiro passa por um momento de reflexão, principalmente em suas categorias de base, ficamos tanto tempo parados quando se diz respeito a metodologias de treino. Por muitos anos, e ainda hoje, a preocupação dos treinos era, na maioria das vezes, voltada a individualidade, tanto em aspectos físicos como em questões táticas. Situações como, sobra de marcação, marcação individual, bola quebrada no nº9 foram preocupações prioritárias de muitos treinadores. E questões coletivas, de entendimento de jogo, como percepção, análise e definição de comportamentos dentro do jogo não faziam parte do treino. Muitas vezes pelo simples fato do não conhecimento destes fatores por treinadores e/ou por enxergarem o jogo como pequenas frações de 1x1.

Fonte: Google Images
O que temos hoje são jogadores formados ou descobertos? Jogadores que talvez se tornassem jogadores por puro talento individual. Por muitos anos e ainda hoje temos a valorização extrema do individualismo. E por essa infindável disponibilidade de talentos, de jogadores e de títulos o Brasil não evoluiu na questão metodológica. Nossos jogadores são mais frutos de nossa cultura futebolística do que de um sistema de formação eficiente, que busque a valorização do atleta como um todo, que pensa, analisa e executa ações em frações de segundos dentro de um ambiente complexo e coletivo.

Uma onda metodológica vem ganhando tamanho e força, uma visão mais sistêmica, que busca uma formação mais abrangente do jogador. Tendo como objetivo a união dos componentes táticos, técnicos, físicos e psicológicos do atleta. Representada pela Periodização Tática essa onda que se difundiu em Portugal, com conceitos holandeses está tomando força no Brasil.

Nos grandes clubes uma mudança metodológica muitas vezes é muitas vezes castrada pela falta de profissionalismo de direções amadoras que não respeitam na maioria das vezes individualidade de cada atleta, nem um seqüência metodológica que não valorize apenas as vitórias e os títulos nas categorias de base, o que é fato comum no cenário futebolístico nacional, Mas por que os clubes escolas vem conseguindo melhores participações em torneios de base, pós é um ambiente aonde os profissionais encontram melhores condições para uma mudança metodológica. A busca pelo resultado ela fica em segundo plano, a formação é a prioridades, formar para que um de seus jogadores chegue a um grande clube, então a formação é priorizada. A pressão de dirigentes e torcedores por títulos é menor e até mesmo a influencia da empresa é maior, pois com a internet a cobertura é cada vez maior, através de blogs e sites especializados em categoria de base e futebol regional. Outro fator importantíssimo que propicia uma aplicabilidade metodológica em clubes formadores é o tempo para o desenvolvimento, em clubes grandes a gestão de presidentes é de dois anos, em clubes formadores o um tempo maior ou em alguns o casos o clube tem um dono, então a metodologia segue sendo aplicada.

Outro passo para que continuemos não tendo uma metodologia consistente é o radicalismo de idéias, o confronto de idéias que temos hoje em desenvolvimento no país. Não teremos um processo de formação consistente que supra todas as necessidades de nossos atletas se copiarmos metodologias já existes. Não é culpa da preparação física que nossos atletas são na sua maioria pobres taticamente, pobres na resolução de problemas complexos dentro do jogo. É comum jogar a culpa da falta de uma organização tática de uma equipe sem princípios de jogo na valorização dos componentes físicos.  Precisamos usar o que temos de melhor nas características que o Brasil já possui e complementar com novas idéias, idéias estas que são necessidades de mercado, tanto interno, como externo do futebol na formação de novos jogadores. O mercado não está aberto apenas para craques, mas também para bons jogadores, com um bom entendimento de jogo, boa qualidade técnica, física e psicológica.

É claro que esta construção não acontece de um dia para o outro. A mudança é um processo longo, e gradual que exige dos clubes, uma programação metodológica ao longo de vários anos. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O treinamento em futebol e os níveis neurológicos

Ao ler o texto do professor e amigo Eduardo Barros no site universidade do futebol, me identifiquei com a proposta do artigo, pois como profissional do futebol, e estudioso do mesmo tenho vivido tais dilemas e dúvidas a respeito desta mudança metodológica que o futebol mundial vem sofrendo. E concordo quando o professor Eduardo coloca que “novos comportamentos refletem em mudanças de ambiente, ou seja, do grupo de pessoas que formam cada um dos clubes do futebol brasileiro”. Mas o que difere neste caso é o quanto este ambiente quer ser modificado, pois vemos grandes trabalhos sendo realizados em pequenos centros de treinamento aonde o ambiente é mais favorável para tais mudanças. Aonde de repente a mudança de comportamento a nível neurológico possa ocorrer, justamente pelo meio.
Quem sabe para os grandes clubes, a mudança possa ocorrer de uma forma menos invasiva, gradual, aos poucos, para que não cause a estranheza do “sistema neurológico”. Uma forma gradual integrativa e não exclusiva. Como por exemplo, o grande conflito sobre as metodologias está quase que centrada na sistemática física, então o fácil é “cortar a parte física pura?”. Esse para mim é o principal erro, temos que integrar, unir, contextualizar, interdisciplinar, multidisciplinar as áreas, e não excluí-las.
Em resumo, parabéns Eduardo pelo texto, grande abraço.




Aproxima-se o fim de inúmeras competições pelo Brasil. Tanto nos campeonatos das categorias de base como nas competições profissionais, as próximas semanas serão de jogos decisivos. E estes jogos, físicos-técnicos-táticos-emocionais ao mesmo tempo, para todos os jogadores, durante os minutos que correspondem a cada partida, pedem treinamentos que contemplem as mesmas características do jogo, certo? Pelo que temos visto, errado!

Declarações, observações, leituras, imagens e reportagens variadas ilustram um cenário que precisa ser alterado mais rapidamente.

Trações, circuito com saltos e acelerações, corridas com mudanças de direção, finalizações descontextualizadas, saltos com pneu, táticos-sombra ou quaisquer outros treinamentos que privilegiem fragmentos do jogo (e não fractais), podem significar perdas de minutos preciosos em momentos, conforme mencionados, tão decisivos. Para estes momentos, leia-se a luta contra o rebaixamento, o acesso, o título, as vagas em competições importantes e, inclusive, a manutenção do emprego.

O dinamismo do mundo atual permite o acesso à informação, ao que é novo ou tendência, num intervalo de tempo consideravelmente pequeno. No futebol, o novo é treinar conforme se quer jogar. Barcelona, José Mourinho, Júlio Garganta, Porto, Claude Bayer, Rodrigo Leitão, Universidade do Porto, Vítor Frade, Ajax, Alcides Scaglia, André Villas-Boas são exemplos de pessoas e instituições que têm privilegiado e divulgado o que é atual.

Porém, por que mesmo com tanta informação disponível, a transformação está aquém da ideal?

Cada indivíduo interpreta a realidade de forma distinta. Diferentes experiências, aprendizagens, vivências e reflexões formam a visão de mundo de cada ser humano, que pode ter maior ou menor capacidade de mudança.
Alguns estudiosos do comportamento humano afirmam que gerimos a mudança (e todos os nossos pensamentos) a partir de seis níveis neurológicos: ambiente, comportamento, competências, crenças/ valores, identidade e espiritualidade.

A interpretação da realidade considerada neste texto será a do treinamento em futebol que, de acordo com todo o material científico que se tem conhecimento, pode ser desenvolvido a partir de um viés tecnicista, integrado ou atual (sistêmico).

O ambiente significa o local em que cada indivíduo atua. Traduzindo para o treinamento em futebol, corresponde a cada clube, formado por um determinado grupo de pessoas.

O comportamento compreende as atitudes efetivas de cada pessoa em um determinado ambiente. Em relação ao treinamento, tais atitudes se referem à maneira que é operacionalizado o processo de desenvolvimento de uma equipe.

Já as competências significam o conjunto de habilidades que cada indivíduo possui e que refletem o modo como o mesmo aplica seus conhecimentos. Para o exemplo deste texto, traduz o que o indivíduo sabe e o quanto se capacita.
E, por último (afinal não será abordada a identidade e espiritualidade para não parecer demasiadamente utópico), o treinamento em futebol segundo as crenças e valores. Neste nível neurológico, a interpretação da realidade se dá de acordo com o que a pessoa acredita, com seus princípios e com suas verdades.

Posto isso, é possível afirmar que a transformação está aquém da ideal, porque pouquíssimos indivíduos que atuam com o futebol conseguem gerar mudanças efetivas no nível neurológico das crenças e valores.

Toda informação disponível tardará para ser, de fato, uma transformação do futebol brasileiro, enquanto as intervenções ocorrerem somente nos três primeiros níveis neurológicos.
Diversos ambientes não permitem uma troca harmoniosa de conhecimento entre os seus integrantes e enquanto treinadores acreditarem que vencerão seus jogos simplesmente porque estão há muito tempo na bola e conhecem o meio, a transformação será atrasada.

O comportamento predominante do treino em futebol não converge para todas as sessões diretamente relacionadas com a ideia de jogo do treinador e assim permanecerá enquanto os preparadores físicos crerem que são necessárias sessões exclusivas para o desenvolvimento de potência, capacidade aeróbia ou resistência específica.

Leituras sobre periodização tática, complexidade, teoria dos jogos, ensino dos JDC e princípios táticos do futebol não irão para a prática, ou irão menos do que poderiam, enquanto forem verdades absolutas para as comissões técnicas, as experiências adquiridas tanto de caráter empírico ou científico.
Mas, se cada indivíduo, não só para o treinamento em futebol, mas para a vida, decidir ampliar sua reflexão, discussão e busca de conhecimento (e autoconhecimento), as mudanças emergenciais serão mais rápidas.

Transformar crenças e valores não é fácil! Os mesmos estudiosos do comportamento humano afirmam que quanto mais alto o nível neurológico, mais difícil é a mudança. O certo é que não há mudança de crença sem tentativa, sem risco, sem acertos, sem erros, sem novas experiências e disponibilidade para novas oportunidades.

Caso haja mudança de crenças e valores em cada indivíduo, consequentemente serão re-significados os três níveis neurológicos inferiores.
Quando a interpretação da realidade para o treino de futebol estiver fundamentada numa perspectiva sistêmica, a sede pela aquisição constante de novas habilidades transferirá todo o conhecimento teórico já existente para a realidade prática.

Com novas competências, derivadas de crenças e valores transformados, novos comportamentos serão observados, pois os anteriores perderão o sentido.

Finalmente, novos comportamentos refletem em mudanças de ambiente, ou seja, do grupo de pessoas que formam cada um dos clubes do futebol brasileiro.

Existem diferentes maneiras de cada ser humano modificar suas crenças: pode ser procurando ajuda, se conhecendo, estudando, conversando, ou de qualquer outra forma que permita um exercício frequente de reflexão.

Para você que já crê no que é atual em relação ao treinamento em futebol, faça sua parte com as competências e comportamentos adequados nos ambientes em que você atua. Já para aqueles que não crêem, não esperem o ambiente e o comportamento dos outros mudarem para você fazer o mesmo, pois isto pode não resolver se suas crenças permanecerem imutáveis.

Enfim, para todos os casos, a mudança só depende de você! Em que nível neurológico você está em relação ao treinamento em futebol?

Às vezes, para falar de futebol é preciso falar de pessoas...

Eduardo Barros
Graduado em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em 2008; especialista em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas, em 2009.
Ex-atleta profissional de futebol no Brasil (AAPP e União Barbarense) e na Argentina (Huracán- TA) decidiu abandonar a carreira de atleta precocemente por insatisfação quanto a seu desempenho e consciência de suas diversas deficiências oriundas da formação.
Atualmente é Treinador Adjunto da Categoria sub-17 do Paulínia FC, em que trabalha desde 2007. No Paulínia, já atuou como professor do Projeto de Iniciação ao Futebol (PIF), como auxiliar técnico das Categorias Sub 12 e 15, além de Treinador das Categorias sub-12 e 13. É membro do Departamento de Pedagogia, sendo um dos responsáveis pela elaboração do Currículo de Formação do Atleta, material interno desenvolvido para todas as Categorias do Clube, do sub-11 ao sub-20.

Acessado em: http://www.universidadedofutebol.com.br/2011/10/3,11615,O+TREINAMENTO+EM+FUTEBOL+E+OS+NIVEIS+NEUROLOGICOS.aspx
 
 
 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Intensidade! Um Conceito Abstrato?


Intensidade de jogo, um conceito que pode ter vários significados, dependendo da metodologia empregada pela comissão técnica. Podemos ter a intensidade medida, mensurada pelo lactato, pela Creatina-Kinase durante e após treinos e jogos. Mas temos outras intensidades, como a intensidade psicológica sofrida  pelos atletas. A intensidade quando relacionado ao aspecto físico dos atletas já está muito bem esclarecida. Temos hoje em dia vários métodos para saber se um treino, ou um jogo foi intenso para cada um de nossos jogadores.

Essa medida pode ser subjetiva, como o questionário de BOMPA, que avalia o estado de recuperação dos atletas em, 12, 24, 36 ou 48hs após o jogo, ou ainda um controle diário através da Escala Subjetiva de BORG. 
Para times com maior estrutura, a medida pode ser direta, dai podemos ter o Lactato como controle de treino, assim como a própria glicemia. Outras técnicas mais avançadas e que aparecem com frequência nos grande clubes é o controle de CK (Creatina-Kinase) um marcador de estresse muscular. A CK é exclusivo do meio intramuscular, e quando encontrado em grande quantidade na corrente sanguínea nos mostra que tivemos  um grande número de micro-lesões musculares, e que se não for observada com atenção pela comissão pode vir a se tornar um grave lesão muscular. Temos também o exame de urina, que nos mostra uma resposta rápida sobre processo catabólico, níveis de sódio e potássio e também a nível de hidratação em que o atleta está no tempo da coleta, que pode ser realizada 12, 24 ou 48 horas após o jogo.
Bom, mas uma vez, esses dados me levam a crer que a evolução sofrida pela parte física no futebol, é sem dúvida maior que na parte técnica e tática, uma vez que quando não se tem métodos de treino, não se tem objetivos para treinas. Por isso achei muito pertinente o artigo do professor Carlos Carvalhal, que mostra uma ideia de intensidade, relacionado a complexidade do jogo, que também refletirá em respostas metabólicas, pois acontecem dentro de um indivíduo que identifica, analisa e executa tarefas, tudo isso gerenciado por um fator psicológico.
Uma boa leitura a todos. 

É comum ouvirmos a palavra Intensidade. São várias as expressões que fazem parte da linguagem do futebol em que a palavra Intensidade está presente: “O jogo foi muito intenso”, “a minha equipa não teve intensidade”, “aquele jogador é muito intenso”, ou ainda “aquele não tem intensidade para jogar a este nível”. Mas então o que será isto de “Intensidade”?
Ao analisarmos o significado da palavra “Intensidade” no dicionário de língua Portuguesa podemos verificar que a noção de intensidade física é aquela que melhor esclarece o que habitualmente se diz sobre este tema, “Em física, a intensidade de uma fonte ou onda mede a variação do fluxo de energia no tempo…”. Ao analisarmos o significado da palavra “intenso” podemos ler: “que tem muita força… veemente, forte”.
Então o que é Intensidade no jogo de futebol? A variação de fluxo de energia no tempo como nos diz a noção da Física?! E um jogador ou jogo intenso? É aquele que tem muita força ou que é muito rápido?
É comum vermos uma equipa entrar a pressionar muito o adversário nos primeiros minutos e ouvirmos dizer que esta está a jogar com elevada intensidade! Será assim? Muitas vezes o que eu vejo é uma pressão “cega”, puramente emocional e desprovida de organização com muitas corridas sem sentido. Não raras as vezes ouvimos posteriormente o comentário, “a equipa entrou muito intensa e depois quebrou na segunda parte”. Será isto intensidade?
Estou em crer que esta noção aparece num sentido abstracto! Diz-se que é intenso quando se corre muito, quando se luta muito, quando se é agressivo! No fundo, utiliza-se esta palavra com uma conotação meramente “física”, associada principalmente à força e velocidade!
Levantemos as seguintes questões: O Barcelona possui em cada jogo uma elevada posse da bola, não será então uma equipa intensa? Uma equipa em posse da bola não poderá e deverá ser intensa? E para circular a bola com eficácia será preciso ser muito rápido de pernas e ter imensa força?
Lembro-me de quando fiz o meu estudo monográfico ter levantado a seguinte questão: é mais intensa uma corrida de 50 m em corrida livre à máxima velocidade ou uma corrida na mesma distância com uma bandeja com dois copos de água em que para venceres não podes deixar cair a água do copo? Para alguns consideram a primeira, porque se reportam meramente ao “físico”, para mim claramente que é a segunda, porquê? Porque tens que dar o teu máximo com uma dificuldade adicional que te vai exigir muito a nível da concentração. No fundo essa dificuldade vem pelo aumento da complexidade da tarefa. Mudou-se o critério de desempenho, aumentou-se a complexidade logo aumentou-se a intensidade.
Chegamos a um ponto importante da nossa reflexão, o critério de desempenho!
Não existe só um Futebol, existem muitos “futebóis”! O Benfica joga diferente do Porto, O Barça diferente do Real Madrid, a Argentina diferente do Brasil. Da ideia teórica que cada treinador tem na sua cabeça, procura reflexo na prestação em cada jogo. Para que isso aconteça, modela a sua equipa de acordo com os exercícios Específicos que preconiza! Esta escolha representa um determinado critério que lhe vai conferir uma determinada identidade.
Os jogadores no Jogo expressam esse critério de desempenho, tentando realizar as acções procurando eficiência e eficácia respeitando uma determinada forma de jogar. Ora aqui está o cerne desta questão, estas escolhas de acordo com a filosofia do treinador são extremamente complexas a partir do momento que se busca eficiência e eficácia. São complexas porque são colectivas e obedecem a um critério colectivo, ao envolver um número elevado de elementos (11 jogadores jogando contra 11) torna as acções mais complexas.
Procuremos um exemplo prático: A posse de bola do Barcelona é na minha opinião extremamente intensa! Ela é intensa porque tem critério de desempenho ofensivo (ter a bola muito tempo de forma a desorganizar o adversário) e dentro desse critério é eficiente e tem eficácia! Os jogadores para respeitar o seu Modelo não precisam de correr muito nem de ter muitíssima força…
Imaginemos uma outra equipa que defende em bloco médio e que tem como critério de desempenho ofensivo procurar chegar rápido à baliza adversária com o menor número de toques possível e com 3 a 4 jogadores envolvidos nestas acções. O desempenho é intenso se existir para além do critério acima referido eficiência e eficácia nas acções.
Se me perguntarem qual dos dois exemplos tem mais intensidade? Dentro de uma lógica sistémica, claramente o do Barcelona! Tem mais jogadores envolvidos, mais tempo de elaboração das acções, mais exigência emocional logo mais complexidade.
A propósito de exigência mental e emocional! Vamos procurar um exemplo do nosso quotidiano: como se sentiram após um exame teórico? Sim, extremamente cansados … correram? Saltaram? Nem saíram do lugar, como ficaram então cansados?! Desgaste mental e emocional.
Este tipo de desgaste existe num jogo de futebol. Quanto mais complexidade, quanto mais se tiver que se usar o cérebro para jogar de forma a respeitar a nossa Ideia de Jogo, mais nos vamos cansar…
A máxima expressão da complexidade que podemos obter em treino são a simulação de um jogo pelo facto de termos em confronto onze jogadores contra outros onze! Quanto mais jogadores, buscando uma identidade de acordo como uma ideia de jogo, mais complexidade vamos ter.
Respeito todas as perspectivas, mas a intensidade que procuro e entendo para as minhas equipas é a da eficiência e eficácia em função dos critérios de desempenho que preconizo de acordo com a modelação que pretendo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Não devemos caricaturar o Barcelona, devemos entender o processo e conhecer nossa realidade





 acesso em http://fcbarcelonacaricature.blogspot.com/2010_10_31_archive.html
    A cada rodada que o time do Barcelona está em campo fica claro que não se trata de time comum, pois apresenta uma série de características que normalmente não são encontradas em nenhum outro time no mundo. É evidente que sua posse de bola é marcante, sua transição defensiva que acontece a partir do momento da perda da bola, principalmente quando esta acontece no campo do adversário, a posse de bola objetiva, sem medo do erro, criando e utilizando espaços, a eficiência da posse de bola com passes transversais e não apenas aquela troca de passes entre zagueiros e volantes que vemos quando se tenta copiar o modelo espanhol.  
          O fenômeno Barcelona é tão grande que revolucionou a própria seleção espanhola, que na sua história era conhecida apenas pela garra, força, imposição física e pela marcação, ficando conhecida com “La Furia”. A partir dos anos 90 o Barcelona começa a ganhar status de super time, com a volta de Cruyff ao Barça depois de uma série de títulos no Ajax. Cruyff plantou na equipe catalã a filosofia que depois caracterizaria o clube, a valorização das categorias de base. O clube seguiria a receita mesmo após a saída do treinador, e hoje sua academia conta com doze equipes, cada uma com até 24 jogadores. Os técnicos são licenciados pela UEFA para dirigir as categorias inferiores do Barça, consideradas as maiores produtoras de jogadores de alto nível, chegando a levar até 15 anos para formar um atleta. Josep Guardiola, Albert Ferrer, Carles Busquets, Thomas Christiansen e Sergi Barjuan, foram todos garotos levados diretamente por Cruyff ao time principal. Guardiola sintetizou a ideologia de seu ex-treinador, seguida até hoje pelo clube:

"os jogadores têm de pensar rápido e jogar com inteligência, sempre sabendo qual será o próximo passe (…). É assim que aprendemos a jogar e que o público espera que joguemos: de forma atraente, mas sem perder a eficiência (…). Cruyff (…) nos ensinou a jogar movimentando a bola rapidamente. Ele só usava jogadores de grande técnica. Quando procuramos por jogadores, ainda queremos essas qualidades”
Guardiola
Não podemos falar da filosofia Barcelona sem falar de “La Masia”, nas paredes desta casa há fotografias de pequenos jogadores, equipes, memórias de um passado recente que marcam a atualidade do futebol. As feições de criança não enganam e da turma de 1996 podemos identificar Iniesta, Valdés, Pepe Reina e Puyol, todos eles campeões do mundo na África do Sul. Em La Masia os  garotos de 14 a 18 anos, recebem todas as condições para um desemvolvimento, primeiramente intelectual, e depois, também, futebolístico para chegarem ao objetivo final, que é o time profissinal. A sede original que formou os craques sitados acima, ficava localizada ao lado do campo de treinos da equipe principal, e poucos metros do Camp Nou, criando assim uma atmosfera única, aonde o sonho é concreto e está logo alí a frente, personalizado em atletas como Messi, Puyol, Xavi e cia.

   Xavi, símbolo de uma filosofia de futebol disse a Equipe Universidade do Futebol em 2010. “ Eu tinha 11 anos quando aqui cheguei, e a filosofia futebolística deste clube foi incutida em mim desde o início. O mais importante nesta fase é a vontade de aprender. A filosofia é a de que o resultado é o que menos interessa", disse o meia.

     No II Seminário de Futebol, realizado no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense com a parceria da Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tivemos a explanação de Nuno Amieiro, ex-técnico adjunto do FC Porto, especialista em alto rendimento pela universidade do Porto, falou sobre a construção de um modelo de jogo.  E Jordi Melero Busquets, ex-jogador do Barcelona e atual gerente de prospecção do Barcelona na América do Sul. Este falou sobre protocolo de avaliação de jogadores. Ambos, a sua maneira, deixaram claro que o processo de formação de uma equipe vencedora passa pelo planejamento a longo prazo, e pelo processo de continuidade. O clube segue um padrão para cada posição dentro de campo, cada uma das posições tem, segundo o clube, características técnicas, físicas e psicológicas distintas. Como disse Jordi ao público no seminário, o Barça tem um Xavi em cada categoria, tem um Iniesta em cada nível. E essas características servem de leme para a captação de jogadores que acontece em países também já mapeados pelo clube espanhol.

   Dentro do clube, a metodologia também é um diferencial, todas as categorias apresentam a mesma forma de jogar, a mesma metodologia de treino, que visa o desenvolvimento cognitivo dos jogadores dentro de uma realidade de jogo baseado nos princípios do modelo de jogo do Barcelona.

     O Barcelona de Messi, Xavi, Iniesta, Puyol e outros, joga a Barcelona no mínimo a 12 anos. Isso aliado com um perfil de jogador, com ótimo nível de concentração e comprometimento, somado a uma cultura européia aonde a ideologia de um garoto de 15 anos, é totalmente diferente de um jovem da mesma idade no Brasil, leva o clube catalão a abrir mão de preocupações para poder centralizar seus objetivos na problemática tática. Um jogador espanhol que passou por um processo de seleção adequado, que passa por uma cultura de jogo consistente, que não muda de dois em dois anos, que não tem sua individualidade rompida pela necessidade de vitória de um treinador que só pensa em sua auto-promoção, tem uma capacidade maior de absorver o treinamento do que um jogador que não está inserido nessa atmosfera propícia para o desenvolvimento gradual de todos os aspectos, técnicos, táticos, físicos e psicológicos.

    Segundo Xavi ao Universidade do Futebol, os benefícios para a equipe principal do clube são evidentes. “Jogar de forma inteligente, passar para o pé direito de um jogador destro, ou para o esquerdo de um canhoto. Antes de receber a bola, já saber o que fazer com ela. Podem ver o resultado desse desenvolvimento, com oito ou nove jogadores-chave da equipa principal do Barcelona oriundos dos escalões jovens. Formam a base sob a qual a equipe é construída", declarou ainda em entrevista ao site.

Acesso em http://mariomarcos.wordpress.com/2011/05/04/a-arte-do-gonza-ii/
  Comentário de Cruijff após a vitória do Real Madri sobre o Barcelona da Copa do Rei de 2011. Afirmando a importância de se fazer o que se sabe fazer “Logo de entrada deve esquecer-se das batalhas dialéticas e quezílias. Não é o seu estilo, e aí perderá sempre. Deve trocar a bola o máximo de tempo possível, e da forma mais simples. Isso passa pelo mais básico. Um toque é sempre melhor que dois. Mais velocidade na circulação de bola, com maior concentração e mais linhas de passe. Não devem preocupar-se com quem é o árbitro, nem se a relva está alta. Devem preocupar-se com a profundidade, algo em que o Villa é fundamental. Sem profundidade o jogo estreita, e há mais perdas de bola e conseqüentes contra-ataques”. Ele deixa claro que quando se foge de uma característica tão inerente ao clube, perde-se não apenas a identidade, mas sim os benefícios de uma cultura de jogo adquirida ao longo de muitos anos.

Bom, mais uma vez, entramos no dilema, como aplicaremos a metodologia vencedora do clube espanhol no Brasil, aqui, em nossa realidade, com jogadores com altíssimo nível técnico, mas com problemas táticos que às vezes parecem irremediáveis. Como resolveremos esse problema? Bom, talvez retirando totalmente os trabalhos físicos analíticos e/ou integrados. Será? Ou melhor, excluiremos os nossos talentos técnicos que por sua vez não tem o mesmo entendimento do modelo de jogo, pois estes por muito tempo receberam informações do tipo “vai dentro dele”,mas pode também cortar os zagueiros que não marcam a zona, pois estes também não tiveram os estímulos adequados pois é mais fácil “pegar o atacante até o fim”.

Enfim, não podemos mudar 50 anos de história e um ou dois anos de radicalismo, ainda mais quando nesses “50 anos” foram ganhos muitos títulos, e construiu-se uma história e formou-se uma cultura, mas podemos adaptar nossos treinos, para que a longo prazo possamos ter resultados mais consistentes. Por exemplo, o preparador físico, foi durante anos a referência científica dentro da comissão técnica, o crescimento da tecnologia, está sendo usada para o desenvolvimento dos parâmetros e controles físico, levou a predominância desta área sobre as demais em todos os métodos de treinamento.

Levando em consideração a grande maioria dos estudiosos do método espanhol, fica claro que o perfil e cultura da onde o jogador está inserido é fundamental e determinante para a definição do processo de desenvolvimento do método de treino. Tendo em vista que o próprio Barcelona, busca estas características de perfil em seus atletas mesmo na base. E juntamente com um processo de desenvolvimento adequado, individualizado a sua realidade, apresentando uma linha contínua de trabalho, aonde uma forma de jogar, baseada e princípios que são fundamentais os resultados são sem dúvida de estrema consistência.



Referências
http://www.maisfutebol.iol.pt/espanha/cruyff-barcelona-real-madrid-champions-league-maisfutebol/1248728-1486.html
http://espn.estadao.com.br/barcelona/noticia/211033_GUARDIOLA+CHEGA+A+12+TITULOS+SUPERA+CRUYFF+E+VIRA+MAIOR+VENCEDOR+DO+BARCELONA
http://www.universidadedofutebol.com.br/2010/10/2,14338,XAVI+ENALTECE+FILOSOFIA+FUTEBOLISTICA+DO+BARCELONA.aspx

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Barcelona, o triunfo de uma filosofia

Olá pessoal, após o II Seminário de Futebol realizado no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, em uma parceria com a Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, aonde se falou muito com uma grande riqueza de detalhes sobre a formação de atletas, sobre as categorias de base. E como não poderia deixar de ser, o clube referência hoje em formação, o Barcelona foi o ponto principal dos debates. Então ao elaborar uma pesquisa, achei uma reportagem no site português Relvado, aonde Gonçalo Moreira, autor da matéria, em dezembro de 2010 apontava "La Masia" com um dos fatores para o sucesso do equipe catalã. La Masia atualmente é um dos, ou senão, o mais moderno centro de formação de jogadores de futebol, que associada ao método de treino aplicado no Barça mostra-se uma fábrica de craques, que esse ano tem três jogadores indicados para a bola de outo.
Minha intenção era reproduzir alguns trechos do texto, mas gostei muito da reportagem e resolvi mostra-la na integra. Abraço a todos e boa leitura.

http://relvado.aeiou.pt/diversos/barcelona-triunfo-uma-filosofia

La Masía é por estes dias tema de conversa no planeta futebol, embora poucos saibam o que é, onde fica e como funciona. Partimos por isso à descoberta da fábrica de talentos do Barcelona, que este ano colocou Xavi, Iniesta e Messi como finalistas da Bola de Ouro.
Explicar o futebol do Barcelona é ir a La Masía, nome da residência onde vivem dezenas de jovens jogadores do clube catalão. Mas afinal o que é uma Masía? Este é um termo utilizado para designar uma típica casa rural, um ambiente que poucos esperam encontrar na zona urbana de Barcelona, mas que sucessivas direcções culés procuraram preservar ao longo dos últimos 30 anos e que de certa forma contribui para o misticismo do local.
La Masía - Academia do BarcelonaA Masía de Can Planes, nome do lar onde vivem actualmente 58 jovens, foi originalmente comprada pelo clube em 1979 para servir de gabinete aos arquitectos que projectaram o Estádio Camp Nou e mais tarde convertida pelo presidente Josep Lluís Núñez na casa das futuras estrelas do clube catalão. Toda a propriedade “cheira” a Catalunha. A traça original e o ambiente acolhedor são perfeitos para que os miúdos se sintam o mais em casa possível, tendo em conta que a maioria se encontra longe das respectivas famílias.
Como se vive em La Masía?
Para quem entra esta é uma casa como tantas outras, com a diferença de que aí vive uma grande família, a blaugrana. Com uma cozinha pequena e várias salas comuns onde se joga de tudo um pouco, esta é uma residência de portas abertas, mas onde as crianças são controladas por responsáveis do clube.
Os dias são passados de forma normal, ora com momentos de estudo, ora com actividades de ócio puro, como manda a idade dos residentes. O bónus para estas crianças é o facto de poderem treinar numa das melhores escolas de futebol do mundo.
Para os atletas que entram no templo sagrado da formação culé o sentimento catalão é algo extra, que vai crescendo com o tempo. Beijar o escudo, apontar para o emblema, são gestos comuns nos campos de futebol de todo o mundo, mas que na Catalunha ainda têm significado, especialmente por todo o sentimento de autonomia (a roçar a independência) que se vive na região em relação ao poder central, que na vertente desportiva é personificada pelo arqui-rival Real Madrid.



Regras a cumprir em La Masía
Nas paredes desta casa abundam as fotografias de miúdos, equipas, memórias de um passado recente que marcam a actualidade do futebol contemporâneo. As feições de criança não enganam e da turma de 1996 podem distinguir-se Andrés Iniesta, Victor Valdés, Pepe Reina e Carles Puyol - todos eles campeões do mundo na África do Sul.
Iniesta e Albert Benaiges (Formação do Barcelona): LusaA história de Iniesta é curiosa porque aos 12 anos esteve a ponto de assinar com o Real Madrid, o que não aconteceu porque os pais do jovem Andrés não queriam o filho a viver em Valdebebas, centro nevrálgico dos merengues que se localiza num subúrbio da capital. Em Barcelona, por outro lado, a família Iniesta encontrou um ambiente familiar e tranquilo para que o filho pudesse crescer como jogador, mas sobretudo como homem.
Um dos responsáveis pela ida de Iniesta para o Barcelona foi Albert Benaiges, coordenador do futebol jovem culé, que está para os catalães como Aurélio Pereira está para o Sporting. Ambos valem ouro e no caso de Benaiges a filosofia é simples quanto à evolução de um jogador de futebol: “numa primeira fase, dos iniciados para baixo, privilegiamos a formação pessoal antes do futebol. Na segunda iniciamos o chamado aperfeiçoamento, aí deve competir-se bastante, ainda que sem perder de vista a formação pessoal, porque nunca se sabe o que pode acontecer”, explica o homem forte das camadas jovens dos catalães ao site futbolbalear.es. 
Made in Barcelona
Competir, competir, competir. A partir de uma certa idade, a palavra de ordem no Barcelona é para jogar, fomentando sempre o contacto com a bola e um estilo de jogo vincadamente ofensivo, que está institucionalizado e que vem de baixo para cima. Esta filosofia é a origem do jogo bonito blaugrana, o chamado tiki-taka, um estilo de futebol que seduz, inspira, choca e que já está a marcar uma nova era do futebol mundial.
A aposta na formação é uma visão de futuro, que pretende vir a estabelecer a médio prazo um plantel com 65 por cento de jogadores provenientes das bases. No entanto, o facto de ter tido uns últimos anos vintage, faz com que o processo esteja acelerado e que no Clássico frente ao Real Madrid (5-0), Pep Guardiola tenha colocado em campo 10 jogadores da formação, sendo que oito foram titulares (Valdés, Piqué, Puyol, Busquets, Xavi, Iniesta, Pedro, Messi).
Com esta premissa em mente, o Barcelona forma com qualidade mas não tem maneira de absorver tudo o que produz, pelo que se tornou um importante centro de exportação de talentos para as melhores Ligas da Europa. Só esta temporada, são 41 os jogadores que actuam nas divisões de topo e que saíram de La Masía, como aconteceu há alguns anos com o central Gerard Piqué, que ingressou nos catalães aos 10 anos, saiu para o Manchester aos 17 e que entretanto regressou com 21 anos para ocupar um lugar no eixo da defesa.
Cesc Fabregas (Arsenal): wikimediaO chamamento provocado pelo orgulho catalão é algo difícil de explicar, mas que deve ser tido em conta. Um dos rumores mais fortes do mercado de transferências é o interesse que o Barça tem em recuperar uma pérola que lhe foi “roubada” precocemente: Cesc Fabregas. O médio esteve na Catalunha até aos 16 anos, quando foi recrutado de forma hostil por outro clube inglês, o Arsenal. Os Gunners resistiram para já a uma primeira abordagem do Barcelona, mas será inevitável que no futuro Fabregas volte ao ponto de partida, quem sabe mesmo se para assumir as funções de Xavi (que está com 30 anos) no meio-campo.
Mas como fazer a transição entre as camadas jovens e o plantel profissional? A resposta reside na sensibilidade e no acompanhamento que é feito por parte do treinador da equipa principal, uma das principais características de Pep Guardiola, ele próprio um produto saído de La Masía. Essa atitude de querer aproveitar o que sai da formação é típica de um homem que passou por todas as fases do processo: foi aluno, jogador, referência e é agora professor. Sem esta capacidade que Guardiola revela de querer maximizar os recursos da casa, torna-se mais difícil produzir talentos, que naturalmente precisam de tempo para crescer.
La Masía do Século XXI
A pensar no futuro está já em marcha a nova residência para jovens, um moderno centro localizado em Sant Joan Despí, a 5 km do Camp Nou, onde foi criada recentemente a Cidade Desportiva Joan Gamper, local de treino diário de todos os escalões do futebol barcelonista. O novo edifício será bem diferente do actual e vai aumentar em termos de capacidade, passando a contar com 82 quartos múltiplos, num total de 6000 metros quadrados (actualmente dispõe de apenas 600 m²).
Orçamentada em cerca de 8/9 milhões de euros, esta Masía moderna pretende fomentar o relacionamento entre os vários funcionários do clube, especialmente entre jogadores dos vários escalões. A blindagem psicológica dos craques é crucial e por isso desde cedo que os mais novos vêem como os profissionais convivem diariamente com a pressão de adeptos, média e todos os interesses que gravitam à volta do planeta futebol.
Para trás ficam 30 anos de um trabalho que já ganhou um lugar na história do futebol e que promete continuar, agora numa versão reciclada. Depois da primeira Bola de Ouro conquistada por Leo Messi em 2009, a formação blaugrana voltará este ano a festejar, quando for anunciado o vencedor a 10 de Janeiro. Xavi, Messi ou Iniesta? Independentemente de quem vier a ganhar, é a filosofia do Barcelona que está a ser premiada.
Fotos: Lusa (1 e 3) e wikimedia (2 e 4)

Acessado em http://relvado.aeiou.pt/diversos/barcelona-triunfo-uma-filosofia