segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O treinamento em futebol e os níveis neurológicos

Ao ler o texto do professor e amigo Eduardo Barros no site universidade do futebol, me identifiquei com a proposta do artigo, pois como profissional do futebol, e estudioso do mesmo tenho vivido tais dilemas e dúvidas a respeito desta mudança metodológica que o futebol mundial vem sofrendo. E concordo quando o professor Eduardo coloca que “novos comportamentos refletem em mudanças de ambiente, ou seja, do grupo de pessoas que formam cada um dos clubes do futebol brasileiro”. Mas o que difere neste caso é o quanto este ambiente quer ser modificado, pois vemos grandes trabalhos sendo realizados em pequenos centros de treinamento aonde o ambiente é mais favorável para tais mudanças. Aonde de repente a mudança de comportamento a nível neurológico possa ocorrer, justamente pelo meio.
Quem sabe para os grandes clubes, a mudança possa ocorrer de uma forma menos invasiva, gradual, aos poucos, para que não cause a estranheza do “sistema neurológico”. Uma forma gradual integrativa e não exclusiva. Como por exemplo, o grande conflito sobre as metodologias está quase que centrada na sistemática física, então o fácil é “cortar a parte física pura?”. Esse para mim é o principal erro, temos que integrar, unir, contextualizar, interdisciplinar, multidisciplinar as áreas, e não excluí-las.
Em resumo, parabéns Eduardo pelo texto, grande abraço.




Aproxima-se o fim de inúmeras competições pelo Brasil. Tanto nos campeonatos das categorias de base como nas competições profissionais, as próximas semanas serão de jogos decisivos. E estes jogos, físicos-técnicos-táticos-emocionais ao mesmo tempo, para todos os jogadores, durante os minutos que correspondem a cada partida, pedem treinamentos que contemplem as mesmas características do jogo, certo? Pelo que temos visto, errado!

Declarações, observações, leituras, imagens e reportagens variadas ilustram um cenário que precisa ser alterado mais rapidamente.

Trações, circuito com saltos e acelerações, corridas com mudanças de direção, finalizações descontextualizadas, saltos com pneu, táticos-sombra ou quaisquer outros treinamentos que privilegiem fragmentos do jogo (e não fractais), podem significar perdas de minutos preciosos em momentos, conforme mencionados, tão decisivos. Para estes momentos, leia-se a luta contra o rebaixamento, o acesso, o título, as vagas em competições importantes e, inclusive, a manutenção do emprego.

O dinamismo do mundo atual permite o acesso à informação, ao que é novo ou tendência, num intervalo de tempo consideravelmente pequeno. No futebol, o novo é treinar conforme se quer jogar. Barcelona, José Mourinho, Júlio Garganta, Porto, Claude Bayer, Rodrigo Leitão, Universidade do Porto, Vítor Frade, Ajax, Alcides Scaglia, André Villas-Boas são exemplos de pessoas e instituições que têm privilegiado e divulgado o que é atual.

Porém, por que mesmo com tanta informação disponível, a transformação está aquém da ideal?

Cada indivíduo interpreta a realidade de forma distinta. Diferentes experiências, aprendizagens, vivências e reflexões formam a visão de mundo de cada ser humano, que pode ter maior ou menor capacidade de mudança.
Alguns estudiosos do comportamento humano afirmam que gerimos a mudança (e todos os nossos pensamentos) a partir de seis níveis neurológicos: ambiente, comportamento, competências, crenças/ valores, identidade e espiritualidade.

A interpretação da realidade considerada neste texto será a do treinamento em futebol que, de acordo com todo o material científico que se tem conhecimento, pode ser desenvolvido a partir de um viés tecnicista, integrado ou atual (sistêmico).

O ambiente significa o local em que cada indivíduo atua. Traduzindo para o treinamento em futebol, corresponde a cada clube, formado por um determinado grupo de pessoas.

O comportamento compreende as atitudes efetivas de cada pessoa em um determinado ambiente. Em relação ao treinamento, tais atitudes se referem à maneira que é operacionalizado o processo de desenvolvimento de uma equipe.

Já as competências significam o conjunto de habilidades que cada indivíduo possui e que refletem o modo como o mesmo aplica seus conhecimentos. Para o exemplo deste texto, traduz o que o indivíduo sabe e o quanto se capacita.
E, por último (afinal não será abordada a identidade e espiritualidade para não parecer demasiadamente utópico), o treinamento em futebol segundo as crenças e valores. Neste nível neurológico, a interpretação da realidade se dá de acordo com o que a pessoa acredita, com seus princípios e com suas verdades.

Posto isso, é possível afirmar que a transformação está aquém da ideal, porque pouquíssimos indivíduos que atuam com o futebol conseguem gerar mudanças efetivas no nível neurológico das crenças e valores.

Toda informação disponível tardará para ser, de fato, uma transformação do futebol brasileiro, enquanto as intervenções ocorrerem somente nos três primeiros níveis neurológicos.
Diversos ambientes não permitem uma troca harmoniosa de conhecimento entre os seus integrantes e enquanto treinadores acreditarem que vencerão seus jogos simplesmente porque estão há muito tempo na bola e conhecem o meio, a transformação será atrasada.

O comportamento predominante do treino em futebol não converge para todas as sessões diretamente relacionadas com a ideia de jogo do treinador e assim permanecerá enquanto os preparadores físicos crerem que são necessárias sessões exclusivas para o desenvolvimento de potência, capacidade aeróbia ou resistência específica.

Leituras sobre periodização tática, complexidade, teoria dos jogos, ensino dos JDC e princípios táticos do futebol não irão para a prática, ou irão menos do que poderiam, enquanto forem verdades absolutas para as comissões técnicas, as experiências adquiridas tanto de caráter empírico ou científico.
Mas, se cada indivíduo, não só para o treinamento em futebol, mas para a vida, decidir ampliar sua reflexão, discussão e busca de conhecimento (e autoconhecimento), as mudanças emergenciais serão mais rápidas.

Transformar crenças e valores não é fácil! Os mesmos estudiosos do comportamento humano afirmam que quanto mais alto o nível neurológico, mais difícil é a mudança. O certo é que não há mudança de crença sem tentativa, sem risco, sem acertos, sem erros, sem novas experiências e disponibilidade para novas oportunidades.

Caso haja mudança de crenças e valores em cada indivíduo, consequentemente serão re-significados os três níveis neurológicos inferiores.
Quando a interpretação da realidade para o treino de futebol estiver fundamentada numa perspectiva sistêmica, a sede pela aquisição constante de novas habilidades transferirá todo o conhecimento teórico já existente para a realidade prática.

Com novas competências, derivadas de crenças e valores transformados, novos comportamentos serão observados, pois os anteriores perderão o sentido.

Finalmente, novos comportamentos refletem em mudanças de ambiente, ou seja, do grupo de pessoas que formam cada um dos clubes do futebol brasileiro.

Existem diferentes maneiras de cada ser humano modificar suas crenças: pode ser procurando ajuda, se conhecendo, estudando, conversando, ou de qualquer outra forma que permita um exercício frequente de reflexão.

Para você que já crê no que é atual em relação ao treinamento em futebol, faça sua parte com as competências e comportamentos adequados nos ambientes em que você atua. Já para aqueles que não crêem, não esperem o ambiente e o comportamento dos outros mudarem para você fazer o mesmo, pois isto pode não resolver se suas crenças permanecerem imutáveis.

Enfim, para todos os casos, a mudança só depende de você! Em que nível neurológico você está em relação ao treinamento em futebol?

Às vezes, para falar de futebol é preciso falar de pessoas...

Eduardo Barros
Graduado em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em 2008; especialista em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas, em 2009.
Ex-atleta profissional de futebol no Brasil (AAPP e União Barbarense) e na Argentina (Huracán- TA) decidiu abandonar a carreira de atleta precocemente por insatisfação quanto a seu desempenho e consciência de suas diversas deficiências oriundas da formação.
Atualmente é Treinador Adjunto da Categoria sub-17 do Paulínia FC, em que trabalha desde 2007. No Paulínia, já atuou como professor do Projeto de Iniciação ao Futebol (PIF), como auxiliar técnico das Categorias Sub 12 e 15, além de Treinador das Categorias sub-12 e 13. É membro do Departamento de Pedagogia, sendo um dos responsáveis pela elaboração do Currículo de Formação do Atleta, material interno desenvolvido para todas as Categorias do Clube, do sub-11 ao sub-20.

Acessado em: http://www.universidadedofutebol.com.br/2011/10/3,11615,O+TREINAMENTO+EM+FUTEBOL+E+OS+NIVEIS+NEUROLOGICOS.aspx
 
 
 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Intensidade! Um Conceito Abstrato?


Intensidade de jogo, um conceito que pode ter vários significados, dependendo da metodologia empregada pela comissão técnica. Podemos ter a intensidade medida, mensurada pelo lactato, pela Creatina-Kinase durante e após treinos e jogos. Mas temos outras intensidades, como a intensidade psicológica sofrida  pelos atletas. A intensidade quando relacionado ao aspecto físico dos atletas já está muito bem esclarecida. Temos hoje em dia vários métodos para saber se um treino, ou um jogo foi intenso para cada um de nossos jogadores.

Essa medida pode ser subjetiva, como o questionário de BOMPA, que avalia o estado de recuperação dos atletas em, 12, 24, 36 ou 48hs após o jogo, ou ainda um controle diário através da Escala Subjetiva de BORG. 
Para times com maior estrutura, a medida pode ser direta, dai podemos ter o Lactato como controle de treino, assim como a própria glicemia. Outras técnicas mais avançadas e que aparecem com frequência nos grande clubes é o controle de CK (Creatina-Kinase) um marcador de estresse muscular. A CK é exclusivo do meio intramuscular, e quando encontrado em grande quantidade na corrente sanguínea nos mostra que tivemos  um grande número de micro-lesões musculares, e que se não for observada com atenção pela comissão pode vir a se tornar um grave lesão muscular. Temos também o exame de urina, que nos mostra uma resposta rápida sobre processo catabólico, níveis de sódio e potássio e também a nível de hidratação em que o atleta está no tempo da coleta, que pode ser realizada 12, 24 ou 48 horas após o jogo.
Bom, mas uma vez, esses dados me levam a crer que a evolução sofrida pela parte física no futebol, é sem dúvida maior que na parte técnica e tática, uma vez que quando não se tem métodos de treino, não se tem objetivos para treinas. Por isso achei muito pertinente o artigo do professor Carlos Carvalhal, que mostra uma ideia de intensidade, relacionado a complexidade do jogo, que também refletirá em respostas metabólicas, pois acontecem dentro de um indivíduo que identifica, analisa e executa tarefas, tudo isso gerenciado por um fator psicológico.
Uma boa leitura a todos. 

É comum ouvirmos a palavra Intensidade. São várias as expressões que fazem parte da linguagem do futebol em que a palavra Intensidade está presente: “O jogo foi muito intenso”, “a minha equipa não teve intensidade”, “aquele jogador é muito intenso”, ou ainda “aquele não tem intensidade para jogar a este nível”. Mas então o que será isto de “Intensidade”?
Ao analisarmos o significado da palavra “Intensidade” no dicionário de língua Portuguesa podemos verificar que a noção de intensidade física é aquela que melhor esclarece o que habitualmente se diz sobre este tema, “Em física, a intensidade de uma fonte ou onda mede a variação do fluxo de energia no tempo…”. Ao analisarmos o significado da palavra “intenso” podemos ler: “que tem muita força… veemente, forte”.
Então o que é Intensidade no jogo de futebol? A variação de fluxo de energia no tempo como nos diz a noção da Física?! E um jogador ou jogo intenso? É aquele que tem muita força ou que é muito rápido?
É comum vermos uma equipa entrar a pressionar muito o adversário nos primeiros minutos e ouvirmos dizer que esta está a jogar com elevada intensidade! Será assim? Muitas vezes o que eu vejo é uma pressão “cega”, puramente emocional e desprovida de organização com muitas corridas sem sentido. Não raras as vezes ouvimos posteriormente o comentário, “a equipa entrou muito intensa e depois quebrou na segunda parte”. Será isto intensidade?
Estou em crer que esta noção aparece num sentido abstracto! Diz-se que é intenso quando se corre muito, quando se luta muito, quando se é agressivo! No fundo, utiliza-se esta palavra com uma conotação meramente “física”, associada principalmente à força e velocidade!
Levantemos as seguintes questões: O Barcelona possui em cada jogo uma elevada posse da bola, não será então uma equipa intensa? Uma equipa em posse da bola não poderá e deverá ser intensa? E para circular a bola com eficácia será preciso ser muito rápido de pernas e ter imensa força?
Lembro-me de quando fiz o meu estudo monográfico ter levantado a seguinte questão: é mais intensa uma corrida de 50 m em corrida livre à máxima velocidade ou uma corrida na mesma distância com uma bandeja com dois copos de água em que para venceres não podes deixar cair a água do copo? Para alguns consideram a primeira, porque se reportam meramente ao “físico”, para mim claramente que é a segunda, porquê? Porque tens que dar o teu máximo com uma dificuldade adicional que te vai exigir muito a nível da concentração. No fundo essa dificuldade vem pelo aumento da complexidade da tarefa. Mudou-se o critério de desempenho, aumentou-se a complexidade logo aumentou-se a intensidade.
Chegamos a um ponto importante da nossa reflexão, o critério de desempenho!
Não existe só um Futebol, existem muitos “futebóis”! O Benfica joga diferente do Porto, O Barça diferente do Real Madrid, a Argentina diferente do Brasil. Da ideia teórica que cada treinador tem na sua cabeça, procura reflexo na prestação em cada jogo. Para que isso aconteça, modela a sua equipa de acordo com os exercícios Específicos que preconiza! Esta escolha representa um determinado critério que lhe vai conferir uma determinada identidade.
Os jogadores no Jogo expressam esse critério de desempenho, tentando realizar as acções procurando eficiência e eficácia respeitando uma determinada forma de jogar. Ora aqui está o cerne desta questão, estas escolhas de acordo com a filosofia do treinador são extremamente complexas a partir do momento que se busca eficiência e eficácia. São complexas porque são colectivas e obedecem a um critério colectivo, ao envolver um número elevado de elementos (11 jogadores jogando contra 11) torna as acções mais complexas.
Procuremos um exemplo prático: A posse de bola do Barcelona é na minha opinião extremamente intensa! Ela é intensa porque tem critério de desempenho ofensivo (ter a bola muito tempo de forma a desorganizar o adversário) e dentro desse critério é eficiente e tem eficácia! Os jogadores para respeitar o seu Modelo não precisam de correr muito nem de ter muitíssima força…
Imaginemos uma outra equipa que defende em bloco médio e que tem como critério de desempenho ofensivo procurar chegar rápido à baliza adversária com o menor número de toques possível e com 3 a 4 jogadores envolvidos nestas acções. O desempenho é intenso se existir para além do critério acima referido eficiência e eficácia nas acções.
Se me perguntarem qual dos dois exemplos tem mais intensidade? Dentro de uma lógica sistémica, claramente o do Barcelona! Tem mais jogadores envolvidos, mais tempo de elaboração das acções, mais exigência emocional logo mais complexidade.
A propósito de exigência mental e emocional! Vamos procurar um exemplo do nosso quotidiano: como se sentiram após um exame teórico? Sim, extremamente cansados … correram? Saltaram? Nem saíram do lugar, como ficaram então cansados?! Desgaste mental e emocional.
Este tipo de desgaste existe num jogo de futebol. Quanto mais complexidade, quanto mais se tiver que se usar o cérebro para jogar de forma a respeitar a nossa Ideia de Jogo, mais nos vamos cansar…
A máxima expressão da complexidade que podemos obter em treino são a simulação de um jogo pelo facto de termos em confronto onze jogadores contra outros onze! Quanto mais jogadores, buscando uma identidade de acordo como uma ideia de jogo, mais complexidade vamos ter.
Respeito todas as perspectivas, mas a intensidade que procuro e entendo para as minhas equipas é a da eficiência e eficácia em função dos critérios de desempenho que preconizo de acordo com a modelação que pretendo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Não devemos caricaturar o Barcelona, devemos entender o processo e conhecer nossa realidade





 acesso em http://fcbarcelonacaricature.blogspot.com/2010_10_31_archive.html
    A cada rodada que o time do Barcelona está em campo fica claro que não se trata de time comum, pois apresenta uma série de características que normalmente não são encontradas em nenhum outro time no mundo. É evidente que sua posse de bola é marcante, sua transição defensiva que acontece a partir do momento da perda da bola, principalmente quando esta acontece no campo do adversário, a posse de bola objetiva, sem medo do erro, criando e utilizando espaços, a eficiência da posse de bola com passes transversais e não apenas aquela troca de passes entre zagueiros e volantes que vemos quando se tenta copiar o modelo espanhol.  
          O fenômeno Barcelona é tão grande que revolucionou a própria seleção espanhola, que na sua história era conhecida apenas pela garra, força, imposição física e pela marcação, ficando conhecida com “La Furia”. A partir dos anos 90 o Barcelona começa a ganhar status de super time, com a volta de Cruyff ao Barça depois de uma série de títulos no Ajax. Cruyff plantou na equipe catalã a filosofia que depois caracterizaria o clube, a valorização das categorias de base. O clube seguiria a receita mesmo após a saída do treinador, e hoje sua academia conta com doze equipes, cada uma com até 24 jogadores. Os técnicos são licenciados pela UEFA para dirigir as categorias inferiores do Barça, consideradas as maiores produtoras de jogadores de alto nível, chegando a levar até 15 anos para formar um atleta. Josep Guardiola, Albert Ferrer, Carles Busquets, Thomas Christiansen e Sergi Barjuan, foram todos garotos levados diretamente por Cruyff ao time principal. Guardiola sintetizou a ideologia de seu ex-treinador, seguida até hoje pelo clube:

"os jogadores têm de pensar rápido e jogar com inteligência, sempre sabendo qual será o próximo passe (…). É assim que aprendemos a jogar e que o público espera que joguemos: de forma atraente, mas sem perder a eficiência (…). Cruyff (…) nos ensinou a jogar movimentando a bola rapidamente. Ele só usava jogadores de grande técnica. Quando procuramos por jogadores, ainda queremos essas qualidades”
Guardiola
Não podemos falar da filosofia Barcelona sem falar de “La Masia”, nas paredes desta casa há fotografias de pequenos jogadores, equipes, memórias de um passado recente que marcam a atualidade do futebol. As feições de criança não enganam e da turma de 1996 podemos identificar Iniesta, Valdés, Pepe Reina e Puyol, todos eles campeões do mundo na África do Sul. Em La Masia os  garotos de 14 a 18 anos, recebem todas as condições para um desemvolvimento, primeiramente intelectual, e depois, também, futebolístico para chegarem ao objetivo final, que é o time profissinal. A sede original que formou os craques sitados acima, ficava localizada ao lado do campo de treinos da equipe principal, e poucos metros do Camp Nou, criando assim uma atmosfera única, aonde o sonho é concreto e está logo alí a frente, personalizado em atletas como Messi, Puyol, Xavi e cia.

   Xavi, símbolo de uma filosofia de futebol disse a Equipe Universidade do Futebol em 2010. “ Eu tinha 11 anos quando aqui cheguei, e a filosofia futebolística deste clube foi incutida em mim desde o início. O mais importante nesta fase é a vontade de aprender. A filosofia é a de que o resultado é o que menos interessa", disse o meia.

     No II Seminário de Futebol, realizado no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense com a parceria da Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tivemos a explanação de Nuno Amieiro, ex-técnico adjunto do FC Porto, especialista em alto rendimento pela universidade do Porto, falou sobre a construção de um modelo de jogo.  E Jordi Melero Busquets, ex-jogador do Barcelona e atual gerente de prospecção do Barcelona na América do Sul. Este falou sobre protocolo de avaliação de jogadores. Ambos, a sua maneira, deixaram claro que o processo de formação de uma equipe vencedora passa pelo planejamento a longo prazo, e pelo processo de continuidade. O clube segue um padrão para cada posição dentro de campo, cada uma das posições tem, segundo o clube, características técnicas, físicas e psicológicas distintas. Como disse Jordi ao público no seminário, o Barça tem um Xavi em cada categoria, tem um Iniesta em cada nível. E essas características servem de leme para a captação de jogadores que acontece em países também já mapeados pelo clube espanhol.

   Dentro do clube, a metodologia também é um diferencial, todas as categorias apresentam a mesma forma de jogar, a mesma metodologia de treino, que visa o desenvolvimento cognitivo dos jogadores dentro de uma realidade de jogo baseado nos princípios do modelo de jogo do Barcelona.

     O Barcelona de Messi, Xavi, Iniesta, Puyol e outros, joga a Barcelona no mínimo a 12 anos. Isso aliado com um perfil de jogador, com ótimo nível de concentração e comprometimento, somado a uma cultura européia aonde a ideologia de um garoto de 15 anos, é totalmente diferente de um jovem da mesma idade no Brasil, leva o clube catalão a abrir mão de preocupações para poder centralizar seus objetivos na problemática tática. Um jogador espanhol que passou por um processo de seleção adequado, que passa por uma cultura de jogo consistente, que não muda de dois em dois anos, que não tem sua individualidade rompida pela necessidade de vitória de um treinador que só pensa em sua auto-promoção, tem uma capacidade maior de absorver o treinamento do que um jogador que não está inserido nessa atmosfera propícia para o desenvolvimento gradual de todos os aspectos, técnicos, táticos, físicos e psicológicos.

    Segundo Xavi ao Universidade do Futebol, os benefícios para a equipe principal do clube são evidentes. “Jogar de forma inteligente, passar para o pé direito de um jogador destro, ou para o esquerdo de um canhoto. Antes de receber a bola, já saber o que fazer com ela. Podem ver o resultado desse desenvolvimento, com oito ou nove jogadores-chave da equipa principal do Barcelona oriundos dos escalões jovens. Formam a base sob a qual a equipe é construída", declarou ainda em entrevista ao site.

Acesso em http://mariomarcos.wordpress.com/2011/05/04/a-arte-do-gonza-ii/
  Comentário de Cruijff após a vitória do Real Madri sobre o Barcelona da Copa do Rei de 2011. Afirmando a importância de se fazer o que se sabe fazer “Logo de entrada deve esquecer-se das batalhas dialéticas e quezílias. Não é o seu estilo, e aí perderá sempre. Deve trocar a bola o máximo de tempo possível, e da forma mais simples. Isso passa pelo mais básico. Um toque é sempre melhor que dois. Mais velocidade na circulação de bola, com maior concentração e mais linhas de passe. Não devem preocupar-se com quem é o árbitro, nem se a relva está alta. Devem preocupar-se com a profundidade, algo em que o Villa é fundamental. Sem profundidade o jogo estreita, e há mais perdas de bola e conseqüentes contra-ataques”. Ele deixa claro que quando se foge de uma característica tão inerente ao clube, perde-se não apenas a identidade, mas sim os benefícios de uma cultura de jogo adquirida ao longo de muitos anos.

Bom, mais uma vez, entramos no dilema, como aplicaremos a metodologia vencedora do clube espanhol no Brasil, aqui, em nossa realidade, com jogadores com altíssimo nível técnico, mas com problemas táticos que às vezes parecem irremediáveis. Como resolveremos esse problema? Bom, talvez retirando totalmente os trabalhos físicos analíticos e/ou integrados. Será? Ou melhor, excluiremos os nossos talentos técnicos que por sua vez não tem o mesmo entendimento do modelo de jogo, pois estes por muito tempo receberam informações do tipo “vai dentro dele”,mas pode também cortar os zagueiros que não marcam a zona, pois estes também não tiveram os estímulos adequados pois é mais fácil “pegar o atacante até o fim”.

Enfim, não podemos mudar 50 anos de história e um ou dois anos de radicalismo, ainda mais quando nesses “50 anos” foram ganhos muitos títulos, e construiu-se uma história e formou-se uma cultura, mas podemos adaptar nossos treinos, para que a longo prazo possamos ter resultados mais consistentes. Por exemplo, o preparador físico, foi durante anos a referência científica dentro da comissão técnica, o crescimento da tecnologia, está sendo usada para o desenvolvimento dos parâmetros e controles físico, levou a predominância desta área sobre as demais em todos os métodos de treinamento.

Levando em consideração a grande maioria dos estudiosos do método espanhol, fica claro que o perfil e cultura da onde o jogador está inserido é fundamental e determinante para a definição do processo de desenvolvimento do método de treino. Tendo em vista que o próprio Barcelona, busca estas características de perfil em seus atletas mesmo na base. E juntamente com um processo de desenvolvimento adequado, individualizado a sua realidade, apresentando uma linha contínua de trabalho, aonde uma forma de jogar, baseada e princípios que são fundamentais os resultados são sem dúvida de estrema consistência.



Referências
http://www.maisfutebol.iol.pt/espanha/cruyff-barcelona-real-madrid-champions-league-maisfutebol/1248728-1486.html
http://espn.estadao.com.br/barcelona/noticia/211033_GUARDIOLA+CHEGA+A+12+TITULOS+SUPERA+CRUYFF+E+VIRA+MAIOR+VENCEDOR+DO+BARCELONA
http://www.universidadedofutebol.com.br/2010/10/2,14338,XAVI+ENALTECE+FILOSOFIA+FUTEBOLISTICA+DO+BARCELONA.aspx