sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A culpa é do preparador físico

Pode parecer oportunimo, mas o resultado após o apito final do mundial de clubes de 2011 já era esperado por um grande números de pessoas, não torcedores comuns, mas sim pessoas que conseguem visualizar que o futebol brasileiro está parado no tempo quando o assunto é organização tática e metodologia de treino e formação de jogadores. Final do jogo do dia 18/12/2011, vimos o Barça fazer o que sempre faz, momentos do jogo bem definidos, agressividade na marcação, compactação, pressão sobre o portador bola em todos os setores do campo, e quando retomam a posse o campo fica imenso. E vimos também o Santos tentar fazer o que faz aqui no Brasil, time sem compactação, jogadas ofensivas baseadas em um ou dois jogadores e nenhuma pressão na bola. O resultado de Barcelona 4x0 Santos é a total realidade da diferença entre o Brasil e a Espanha e outros países europeus. Mas porque?

Fonte www.flamengorj.com.br

O Brasil é o país que mais possui títulos mundiais em copas do mundo, somos a única seleção que esteve presente em todas as copas, somos o pais que mais exporta jogadores para o mundo todo, e ainda todos os anos temos jogadores brasileiros entre os melhores do mundo, nos últimos anos um pouco menos, mas quase sempre estão presentes. Todos estes fatores contribuiriam para que outros países evoluíssem em termos táticos e principalmente em termos metodológicos. Mas será que nosso futebol parou no tempo? Não, seguindo uma linha educacional nosso futebol andou junto com evolução de nossos professores, e na década de 80 um membro da comissão técnica ganha força, o preparador físico. Seguindo a evolução da fisiologia, e principalmente a fisiologia do exercício os componentes físico se tornaram a principal preocupação de muitos clubes no Brasil e no mundo. Tivemos a resistência aeróbia, corridas contínuas, treinos de força, intervalados o VO2max, limiares de lactato, plataformas de força, CK, ureia, TGO, GPSs, e....... Uma série de controles físico, que seguindo um modelo Russo até hoje ditam os rumos da periodização no Brasil. Está errados? Não, a preparação física evoluiu, muito, a medicina esportiva evoluiu muito, a nutrição evoluiu, bastante, a fisioterapia evoluiu, mas e os aspectos táticos? 

Para mim fica claro, todas essas áreas cresceram por que os profissionais destas áreas evoluíram, buscaram conhecimento, estudaram as necessidades dos jogadores, analisaram as especificidades de cada função, lesão e tipo de nutrição para determinado momento da competição e objetivo, mas e a parte tática. Tivemos por muito tempo, e ainda temos "profissionais" sem capacitação a frente de equipes, a frente de jovens jogadores que precisam de muita informação, e não apenas de gritos  de "vamo" e "vamo".

Mas então qual a saída? Muitos acham que devemos apagar nossa história, e começar do zero, sendo mais direto, alguns radicais querem colocar a culpa da irresponsabilidade e incompetência de treinadores e dirigentes amadores nos preparadores físicos, pois estes tem como conceito de que o treinamento físico, desadapta os jogadores de uma percepção que é coletiva. Na verdade não é a preparação física que trava uma melhora metodológica brasileira, mas sim a falta de uma construção tática ao longo dos anos de formação nas categorias de base dos clubes. Penso que devemos agora, aproveitar toda a evolução das áreas biológicas (Física, Fisiologia, Fisioterapia, Nutrição e Psicologia) para tentarmos alcançar melhores resultados em níveis táticos, que por muitos anos não apresenta evolução alguma.

O Brasil parece ter acordado, parece ter percebido que além de nossos talentos individuais, podemos ter um pouco mais de valor coletivo, e quem sabe os treinadores podem aprender mais com seus colegas fisiologistas, fisioterapeutas e também com seu fiel escudeiro, o preparador físico. Sem contar que temos grande treinadores brasileiros que iniciaram como preparadores físicos, posso citar, Carlos Alberto Parreira, Otacílio Gonçalves e Celso Roth são alguns exemplos. Se muitos treinadores tivessem a metade da organização dos preparadores físicos, fisiologistas, nutricionistas e fisioterapeutas o futebol brasileiro estaria muito mais a frente, e evoluído.


Devemos construir uma metodologia que atenda todas as necessidades dos nossos atletas, necessidades que são culturais. Aliás, esse é o segredo dos nossos super talentos, nossa cultura, nossos filhos saem da maternidade vestidos com as cores de dos nossos times de coração, e com o primeiro brinquedo dentro da sacola das fraldas, a bola.






segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Era a isso que eu me referia!




A algum tempo algumas pessoas vêm tentando abrir os olhos do meio futebolistico brasileiro sobre as mudanças que estão acontecendo no mundo do futebol. Um resultado como o da final do mundial de clubes era necessário para que os olhos de todos podessem ver que não podemos mais depender de individualidades. Mas, por favor, a solução não é tirar xerox do Barça.


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Pequenos Clubes, Grandes Resultados.

Final da SC CUP 2011 Audax-SP x Atletico-PR. É cada vez mais comum ver em finais de competições de base, nomes novos, nomes que a torcida de grande clubes não estavam acostumados. Em muitos torneios de categorias de base os grandes clubes, clubes de massa, que sempre tiveram hegemonia de conquistas e até mesmo de participação em grandes torneios de base. Clubes pequenos, ou clubes formadores vêm ocupando um espaço de destaque no cenário de formação de jogadores no Brasil e no mundo. Clubes estas que possuem estrutura, objetivos e em alguns casos metodologia de trabalho, muitas vezes projetos de formação baseados em clubes europeus.

O futebol brasileiro passa por um momento de reflexão, principalmente em suas categorias de base, ficamos tanto tempo parados quando se diz respeito a metodologias de treino. Por muitos anos, e ainda hoje, a preocupação dos treinos era, na maioria das vezes, voltada a individualidade, tanto em aspectos físicos como em questões táticas. Situações como, sobra de marcação, marcação individual, bola quebrada no nº9 foram preocupações prioritárias de muitos treinadores. E questões coletivas, de entendimento de jogo, como percepção, análise e definição de comportamentos dentro do jogo não faziam parte do treino. Muitas vezes pelo simples fato do não conhecimento destes fatores por treinadores e/ou por enxergarem o jogo como pequenas frações de 1x1.

Fonte: Google Images
O que temos hoje são jogadores formados ou descobertos? Jogadores que talvez se tornassem jogadores por puro talento individual. Por muitos anos e ainda hoje temos a valorização extrema do individualismo. E por essa infindável disponibilidade de talentos, de jogadores e de títulos o Brasil não evoluiu na questão metodológica. Nossos jogadores são mais frutos de nossa cultura futebolística do que de um sistema de formação eficiente, que busque a valorização do atleta como um todo, que pensa, analisa e executa ações em frações de segundos dentro de um ambiente complexo e coletivo.

Uma onda metodológica vem ganhando tamanho e força, uma visão mais sistêmica, que busca uma formação mais abrangente do jogador. Tendo como objetivo a união dos componentes táticos, técnicos, físicos e psicológicos do atleta. Representada pela Periodização Tática essa onda que se difundiu em Portugal, com conceitos holandeses está tomando força no Brasil.

Nos grandes clubes uma mudança metodológica muitas vezes é muitas vezes castrada pela falta de profissionalismo de direções amadoras que não respeitam na maioria das vezes individualidade de cada atleta, nem um seqüência metodológica que não valorize apenas as vitórias e os títulos nas categorias de base, o que é fato comum no cenário futebolístico nacional, Mas por que os clubes escolas vem conseguindo melhores participações em torneios de base, pós é um ambiente aonde os profissionais encontram melhores condições para uma mudança metodológica. A busca pelo resultado ela fica em segundo plano, a formação é a prioridades, formar para que um de seus jogadores chegue a um grande clube, então a formação é priorizada. A pressão de dirigentes e torcedores por títulos é menor e até mesmo a influencia da empresa é maior, pois com a internet a cobertura é cada vez maior, através de blogs e sites especializados em categoria de base e futebol regional. Outro fator importantíssimo que propicia uma aplicabilidade metodológica em clubes formadores é o tempo para o desenvolvimento, em clubes grandes a gestão de presidentes é de dois anos, em clubes formadores o um tempo maior ou em alguns o casos o clube tem um dono, então a metodologia segue sendo aplicada.

Outro passo para que continuemos não tendo uma metodologia consistente é o radicalismo de idéias, o confronto de idéias que temos hoje em desenvolvimento no país. Não teremos um processo de formação consistente que supra todas as necessidades de nossos atletas se copiarmos metodologias já existes. Não é culpa da preparação física que nossos atletas são na sua maioria pobres taticamente, pobres na resolução de problemas complexos dentro do jogo. É comum jogar a culpa da falta de uma organização tática de uma equipe sem princípios de jogo na valorização dos componentes físicos.  Precisamos usar o que temos de melhor nas características que o Brasil já possui e complementar com novas idéias, idéias estas que são necessidades de mercado, tanto interno, como externo do futebol na formação de novos jogadores. O mercado não está aberto apenas para craques, mas também para bons jogadores, com um bom entendimento de jogo, boa qualidade técnica, física e psicológica.

É claro que esta construção não acontece de um dia para o outro. A mudança é um processo longo, e gradual que exige dos clubes, uma programação metodológica ao longo de vários anos. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O treinamento em futebol e os níveis neurológicos

Ao ler o texto do professor e amigo Eduardo Barros no site universidade do futebol, me identifiquei com a proposta do artigo, pois como profissional do futebol, e estudioso do mesmo tenho vivido tais dilemas e dúvidas a respeito desta mudança metodológica que o futebol mundial vem sofrendo. E concordo quando o professor Eduardo coloca que “novos comportamentos refletem em mudanças de ambiente, ou seja, do grupo de pessoas que formam cada um dos clubes do futebol brasileiro”. Mas o que difere neste caso é o quanto este ambiente quer ser modificado, pois vemos grandes trabalhos sendo realizados em pequenos centros de treinamento aonde o ambiente é mais favorável para tais mudanças. Aonde de repente a mudança de comportamento a nível neurológico possa ocorrer, justamente pelo meio.
Quem sabe para os grandes clubes, a mudança possa ocorrer de uma forma menos invasiva, gradual, aos poucos, para que não cause a estranheza do “sistema neurológico”. Uma forma gradual integrativa e não exclusiva. Como por exemplo, o grande conflito sobre as metodologias está quase que centrada na sistemática física, então o fácil é “cortar a parte física pura?”. Esse para mim é o principal erro, temos que integrar, unir, contextualizar, interdisciplinar, multidisciplinar as áreas, e não excluí-las.
Em resumo, parabéns Eduardo pelo texto, grande abraço.




Aproxima-se o fim de inúmeras competições pelo Brasil. Tanto nos campeonatos das categorias de base como nas competições profissionais, as próximas semanas serão de jogos decisivos. E estes jogos, físicos-técnicos-táticos-emocionais ao mesmo tempo, para todos os jogadores, durante os minutos que correspondem a cada partida, pedem treinamentos que contemplem as mesmas características do jogo, certo? Pelo que temos visto, errado!

Declarações, observações, leituras, imagens e reportagens variadas ilustram um cenário que precisa ser alterado mais rapidamente.

Trações, circuito com saltos e acelerações, corridas com mudanças de direção, finalizações descontextualizadas, saltos com pneu, táticos-sombra ou quaisquer outros treinamentos que privilegiem fragmentos do jogo (e não fractais), podem significar perdas de minutos preciosos em momentos, conforme mencionados, tão decisivos. Para estes momentos, leia-se a luta contra o rebaixamento, o acesso, o título, as vagas em competições importantes e, inclusive, a manutenção do emprego.

O dinamismo do mundo atual permite o acesso à informação, ao que é novo ou tendência, num intervalo de tempo consideravelmente pequeno. No futebol, o novo é treinar conforme se quer jogar. Barcelona, José Mourinho, Júlio Garganta, Porto, Claude Bayer, Rodrigo Leitão, Universidade do Porto, Vítor Frade, Ajax, Alcides Scaglia, André Villas-Boas são exemplos de pessoas e instituições que têm privilegiado e divulgado o que é atual.

Porém, por que mesmo com tanta informação disponível, a transformação está aquém da ideal?

Cada indivíduo interpreta a realidade de forma distinta. Diferentes experiências, aprendizagens, vivências e reflexões formam a visão de mundo de cada ser humano, que pode ter maior ou menor capacidade de mudança.
Alguns estudiosos do comportamento humano afirmam que gerimos a mudança (e todos os nossos pensamentos) a partir de seis níveis neurológicos: ambiente, comportamento, competências, crenças/ valores, identidade e espiritualidade.

A interpretação da realidade considerada neste texto será a do treinamento em futebol que, de acordo com todo o material científico que se tem conhecimento, pode ser desenvolvido a partir de um viés tecnicista, integrado ou atual (sistêmico).

O ambiente significa o local em que cada indivíduo atua. Traduzindo para o treinamento em futebol, corresponde a cada clube, formado por um determinado grupo de pessoas.

O comportamento compreende as atitudes efetivas de cada pessoa em um determinado ambiente. Em relação ao treinamento, tais atitudes se referem à maneira que é operacionalizado o processo de desenvolvimento de uma equipe.

Já as competências significam o conjunto de habilidades que cada indivíduo possui e que refletem o modo como o mesmo aplica seus conhecimentos. Para o exemplo deste texto, traduz o que o indivíduo sabe e o quanto se capacita.
E, por último (afinal não será abordada a identidade e espiritualidade para não parecer demasiadamente utópico), o treinamento em futebol segundo as crenças e valores. Neste nível neurológico, a interpretação da realidade se dá de acordo com o que a pessoa acredita, com seus princípios e com suas verdades.

Posto isso, é possível afirmar que a transformação está aquém da ideal, porque pouquíssimos indivíduos que atuam com o futebol conseguem gerar mudanças efetivas no nível neurológico das crenças e valores.

Toda informação disponível tardará para ser, de fato, uma transformação do futebol brasileiro, enquanto as intervenções ocorrerem somente nos três primeiros níveis neurológicos.
Diversos ambientes não permitem uma troca harmoniosa de conhecimento entre os seus integrantes e enquanto treinadores acreditarem que vencerão seus jogos simplesmente porque estão há muito tempo na bola e conhecem o meio, a transformação será atrasada.

O comportamento predominante do treino em futebol não converge para todas as sessões diretamente relacionadas com a ideia de jogo do treinador e assim permanecerá enquanto os preparadores físicos crerem que são necessárias sessões exclusivas para o desenvolvimento de potência, capacidade aeróbia ou resistência específica.

Leituras sobre periodização tática, complexidade, teoria dos jogos, ensino dos JDC e princípios táticos do futebol não irão para a prática, ou irão menos do que poderiam, enquanto forem verdades absolutas para as comissões técnicas, as experiências adquiridas tanto de caráter empírico ou científico.
Mas, se cada indivíduo, não só para o treinamento em futebol, mas para a vida, decidir ampliar sua reflexão, discussão e busca de conhecimento (e autoconhecimento), as mudanças emergenciais serão mais rápidas.

Transformar crenças e valores não é fácil! Os mesmos estudiosos do comportamento humano afirmam que quanto mais alto o nível neurológico, mais difícil é a mudança. O certo é que não há mudança de crença sem tentativa, sem risco, sem acertos, sem erros, sem novas experiências e disponibilidade para novas oportunidades.

Caso haja mudança de crenças e valores em cada indivíduo, consequentemente serão re-significados os três níveis neurológicos inferiores.
Quando a interpretação da realidade para o treino de futebol estiver fundamentada numa perspectiva sistêmica, a sede pela aquisição constante de novas habilidades transferirá todo o conhecimento teórico já existente para a realidade prática.

Com novas competências, derivadas de crenças e valores transformados, novos comportamentos serão observados, pois os anteriores perderão o sentido.

Finalmente, novos comportamentos refletem em mudanças de ambiente, ou seja, do grupo de pessoas que formam cada um dos clubes do futebol brasileiro.

Existem diferentes maneiras de cada ser humano modificar suas crenças: pode ser procurando ajuda, se conhecendo, estudando, conversando, ou de qualquer outra forma que permita um exercício frequente de reflexão.

Para você que já crê no que é atual em relação ao treinamento em futebol, faça sua parte com as competências e comportamentos adequados nos ambientes em que você atua. Já para aqueles que não crêem, não esperem o ambiente e o comportamento dos outros mudarem para você fazer o mesmo, pois isto pode não resolver se suas crenças permanecerem imutáveis.

Enfim, para todos os casos, a mudança só depende de você! Em que nível neurológico você está em relação ao treinamento em futebol?

Às vezes, para falar de futebol é preciso falar de pessoas...

Eduardo Barros
Graduado em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em 2008; especialista em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas, em 2009.
Ex-atleta profissional de futebol no Brasil (AAPP e União Barbarense) e na Argentina (Huracán- TA) decidiu abandonar a carreira de atleta precocemente por insatisfação quanto a seu desempenho e consciência de suas diversas deficiências oriundas da formação.
Atualmente é Treinador Adjunto da Categoria sub-17 do Paulínia FC, em que trabalha desde 2007. No Paulínia, já atuou como professor do Projeto de Iniciação ao Futebol (PIF), como auxiliar técnico das Categorias Sub 12 e 15, além de Treinador das Categorias sub-12 e 13. É membro do Departamento de Pedagogia, sendo um dos responsáveis pela elaboração do Currículo de Formação do Atleta, material interno desenvolvido para todas as Categorias do Clube, do sub-11 ao sub-20.

Acessado em: http://www.universidadedofutebol.com.br/2011/10/3,11615,O+TREINAMENTO+EM+FUTEBOL+E+OS+NIVEIS+NEUROLOGICOS.aspx
 
 
 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Intensidade! Um Conceito Abstrato?


Intensidade de jogo, um conceito que pode ter vários significados, dependendo da metodologia empregada pela comissão técnica. Podemos ter a intensidade medida, mensurada pelo lactato, pela Creatina-Kinase durante e após treinos e jogos. Mas temos outras intensidades, como a intensidade psicológica sofrida  pelos atletas. A intensidade quando relacionado ao aspecto físico dos atletas já está muito bem esclarecida. Temos hoje em dia vários métodos para saber se um treino, ou um jogo foi intenso para cada um de nossos jogadores.

Essa medida pode ser subjetiva, como o questionário de BOMPA, que avalia o estado de recuperação dos atletas em, 12, 24, 36 ou 48hs após o jogo, ou ainda um controle diário através da Escala Subjetiva de BORG. 
Para times com maior estrutura, a medida pode ser direta, dai podemos ter o Lactato como controle de treino, assim como a própria glicemia. Outras técnicas mais avançadas e que aparecem com frequência nos grande clubes é o controle de CK (Creatina-Kinase) um marcador de estresse muscular. A CK é exclusivo do meio intramuscular, e quando encontrado em grande quantidade na corrente sanguínea nos mostra que tivemos  um grande número de micro-lesões musculares, e que se não for observada com atenção pela comissão pode vir a se tornar um grave lesão muscular. Temos também o exame de urina, que nos mostra uma resposta rápida sobre processo catabólico, níveis de sódio e potássio e também a nível de hidratação em que o atleta está no tempo da coleta, que pode ser realizada 12, 24 ou 48 horas após o jogo.
Bom, mas uma vez, esses dados me levam a crer que a evolução sofrida pela parte física no futebol, é sem dúvida maior que na parte técnica e tática, uma vez que quando não se tem métodos de treino, não se tem objetivos para treinas. Por isso achei muito pertinente o artigo do professor Carlos Carvalhal, que mostra uma ideia de intensidade, relacionado a complexidade do jogo, que também refletirá em respostas metabólicas, pois acontecem dentro de um indivíduo que identifica, analisa e executa tarefas, tudo isso gerenciado por um fator psicológico.
Uma boa leitura a todos. 

É comum ouvirmos a palavra Intensidade. São várias as expressões que fazem parte da linguagem do futebol em que a palavra Intensidade está presente: “O jogo foi muito intenso”, “a minha equipa não teve intensidade”, “aquele jogador é muito intenso”, ou ainda “aquele não tem intensidade para jogar a este nível”. Mas então o que será isto de “Intensidade”?
Ao analisarmos o significado da palavra “Intensidade” no dicionário de língua Portuguesa podemos verificar que a noção de intensidade física é aquela que melhor esclarece o que habitualmente se diz sobre este tema, “Em física, a intensidade de uma fonte ou onda mede a variação do fluxo de energia no tempo…”. Ao analisarmos o significado da palavra “intenso” podemos ler: “que tem muita força… veemente, forte”.
Então o que é Intensidade no jogo de futebol? A variação de fluxo de energia no tempo como nos diz a noção da Física?! E um jogador ou jogo intenso? É aquele que tem muita força ou que é muito rápido?
É comum vermos uma equipa entrar a pressionar muito o adversário nos primeiros minutos e ouvirmos dizer que esta está a jogar com elevada intensidade! Será assim? Muitas vezes o que eu vejo é uma pressão “cega”, puramente emocional e desprovida de organização com muitas corridas sem sentido. Não raras as vezes ouvimos posteriormente o comentário, “a equipa entrou muito intensa e depois quebrou na segunda parte”. Será isto intensidade?
Estou em crer que esta noção aparece num sentido abstracto! Diz-se que é intenso quando se corre muito, quando se luta muito, quando se é agressivo! No fundo, utiliza-se esta palavra com uma conotação meramente “física”, associada principalmente à força e velocidade!
Levantemos as seguintes questões: O Barcelona possui em cada jogo uma elevada posse da bola, não será então uma equipa intensa? Uma equipa em posse da bola não poderá e deverá ser intensa? E para circular a bola com eficácia será preciso ser muito rápido de pernas e ter imensa força?
Lembro-me de quando fiz o meu estudo monográfico ter levantado a seguinte questão: é mais intensa uma corrida de 50 m em corrida livre à máxima velocidade ou uma corrida na mesma distância com uma bandeja com dois copos de água em que para venceres não podes deixar cair a água do copo? Para alguns consideram a primeira, porque se reportam meramente ao “físico”, para mim claramente que é a segunda, porquê? Porque tens que dar o teu máximo com uma dificuldade adicional que te vai exigir muito a nível da concentração. No fundo essa dificuldade vem pelo aumento da complexidade da tarefa. Mudou-se o critério de desempenho, aumentou-se a complexidade logo aumentou-se a intensidade.
Chegamos a um ponto importante da nossa reflexão, o critério de desempenho!
Não existe só um Futebol, existem muitos “futebóis”! O Benfica joga diferente do Porto, O Barça diferente do Real Madrid, a Argentina diferente do Brasil. Da ideia teórica que cada treinador tem na sua cabeça, procura reflexo na prestação em cada jogo. Para que isso aconteça, modela a sua equipa de acordo com os exercícios Específicos que preconiza! Esta escolha representa um determinado critério que lhe vai conferir uma determinada identidade.
Os jogadores no Jogo expressam esse critério de desempenho, tentando realizar as acções procurando eficiência e eficácia respeitando uma determinada forma de jogar. Ora aqui está o cerne desta questão, estas escolhas de acordo com a filosofia do treinador são extremamente complexas a partir do momento que se busca eficiência e eficácia. São complexas porque são colectivas e obedecem a um critério colectivo, ao envolver um número elevado de elementos (11 jogadores jogando contra 11) torna as acções mais complexas.
Procuremos um exemplo prático: A posse de bola do Barcelona é na minha opinião extremamente intensa! Ela é intensa porque tem critério de desempenho ofensivo (ter a bola muito tempo de forma a desorganizar o adversário) e dentro desse critério é eficiente e tem eficácia! Os jogadores para respeitar o seu Modelo não precisam de correr muito nem de ter muitíssima força…
Imaginemos uma outra equipa que defende em bloco médio e que tem como critério de desempenho ofensivo procurar chegar rápido à baliza adversária com o menor número de toques possível e com 3 a 4 jogadores envolvidos nestas acções. O desempenho é intenso se existir para além do critério acima referido eficiência e eficácia nas acções.
Se me perguntarem qual dos dois exemplos tem mais intensidade? Dentro de uma lógica sistémica, claramente o do Barcelona! Tem mais jogadores envolvidos, mais tempo de elaboração das acções, mais exigência emocional logo mais complexidade.
A propósito de exigência mental e emocional! Vamos procurar um exemplo do nosso quotidiano: como se sentiram após um exame teórico? Sim, extremamente cansados … correram? Saltaram? Nem saíram do lugar, como ficaram então cansados?! Desgaste mental e emocional.
Este tipo de desgaste existe num jogo de futebol. Quanto mais complexidade, quanto mais se tiver que se usar o cérebro para jogar de forma a respeitar a nossa Ideia de Jogo, mais nos vamos cansar…
A máxima expressão da complexidade que podemos obter em treino são a simulação de um jogo pelo facto de termos em confronto onze jogadores contra outros onze! Quanto mais jogadores, buscando uma identidade de acordo como uma ideia de jogo, mais complexidade vamos ter.
Respeito todas as perspectivas, mas a intensidade que procuro e entendo para as minhas equipas é a da eficiência e eficácia em função dos critérios de desempenho que preconizo de acordo com a modelação que pretendo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Não devemos caricaturar o Barcelona, devemos entender o processo e conhecer nossa realidade





 acesso em http://fcbarcelonacaricature.blogspot.com/2010_10_31_archive.html
    A cada rodada que o time do Barcelona está em campo fica claro que não se trata de time comum, pois apresenta uma série de características que normalmente não são encontradas em nenhum outro time no mundo. É evidente que sua posse de bola é marcante, sua transição defensiva que acontece a partir do momento da perda da bola, principalmente quando esta acontece no campo do adversário, a posse de bola objetiva, sem medo do erro, criando e utilizando espaços, a eficiência da posse de bola com passes transversais e não apenas aquela troca de passes entre zagueiros e volantes que vemos quando se tenta copiar o modelo espanhol.  
          O fenômeno Barcelona é tão grande que revolucionou a própria seleção espanhola, que na sua história era conhecida apenas pela garra, força, imposição física e pela marcação, ficando conhecida com “La Furia”. A partir dos anos 90 o Barcelona começa a ganhar status de super time, com a volta de Cruyff ao Barça depois de uma série de títulos no Ajax. Cruyff plantou na equipe catalã a filosofia que depois caracterizaria o clube, a valorização das categorias de base. O clube seguiria a receita mesmo após a saída do treinador, e hoje sua academia conta com doze equipes, cada uma com até 24 jogadores. Os técnicos são licenciados pela UEFA para dirigir as categorias inferiores do Barça, consideradas as maiores produtoras de jogadores de alto nível, chegando a levar até 15 anos para formar um atleta. Josep Guardiola, Albert Ferrer, Carles Busquets, Thomas Christiansen e Sergi Barjuan, foram todos garotos levados diretamente por Cruyff ao time principal. Guardiola sintetizou a ideologia de seu ex-treinador, seguida até hoje pelo clube:

"os jogadores têm de pensar rápido e jogar com inteligência, sempre sabendo qual será o próximo passe (…). É assim que aprendemos a jogar e que o público espera que joguemos: de forma atraente, mas sem perder a eficiência (…). Cruyff (…) nos ensinou a jogar movimentando a bola rapidamente. Ele só usava jogadores de grande técnica. Quando procuramos por jogadores, ainda queremos essas qualidades”
Guardiola
Não podemos falar da filosofia Barcelona sem falar de “La Masia”, nas paredes desta casa há fotografias de pequenos jogadores, equipes, memórias de um passado recente que marcam a atualidade do futebol. As feições de criança não enganam e da turma de 1996 podemos identificar Iniesta, Valdés, Pepe Reina e Puyol, todos eles campeões do mundo na África do Sul. Em La Masia os  garotos de 14 a 18 anos, recebem todas as condições para um desemvolvimento, primeiramente intelectual, e depois, também, futebolístico para chegarem ao objetivo final, que é o time profissinal. A sede original que formou os craques sitados acima, ficava localizada ao lado do campo de treinos da equipe principal, e poucos metros do Camp Nou, criando assim uma atmosfera única, aonde o sonho é concreto e está logo alí a frente, personalizado em atletas como Messi, Puyol, Xavi e cia.

   Xavi, símbolo de uma filosofia de futebol disse a Equipe Universidade do Futebol em 2010. “ Eu tinha 11 anos quando aqui cheguei, e a filosofia futebolística deste clube foi incutida em mim desde o início. O mais importante nesta fase é a vontade de aprender. A filosofia é a de que o resultado é o que menos interessa", disse o meia.

     No II Seminário de Futebol, realizado no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense com a parceria da Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tivemos a explanação de Nuno Amieiro, ex-técnico adjunto do FC Porto, especialista em alto rendimento pela universidade do Porto, falou sobre a construção de um modelo de jogo.  E Jordi Melero Busquets, ex-jogador do Barcelona e atual gerente de prospecção do Barcelona na América do Sul. Este falou sobre protocolo de avaliação de jogadores. Ambos, a sua maneira, deixaram claro que o processo de formação de uma equipe vencedora passa pelo planejamento a longo prazo, e pelo processo de continuidade. O clube segue um padrão para cada posição dentro de campo, cada uma das posições tem, segundo o clube, características técnicas, físicas e psicológicas distintas. Como disse Jordi ao público no seminário, o Barça tem um Xavi em cada categoria, tem um Iniesta em cada nível. E essas características servem de leme para a captação de jogadores que acontece em países também já mapeados pelo clube espanhol.

   Dentro do clube, a metodologia também é um diferencial, todas as categorias apresentam a mesma forma de jogar, a mesma metodologia de treino, que visa o desenvolvimento cognitivo dos jogadores dentro de uma realidade de jogo baseado nos princípios do modelo de jogo do Barcelona.

     O Barcelona de Messi, Xavi, Iniesta, Puyol e outros, joga a Barcelona no mínimo a 12 anos. Isso aliado com um perfil de jogador, com ótimo nível de concentração e comprometimento, somado a uma cultura européia aonde a ideologia de um garoto de 15 anos, é totalmente diferente de um jovem da mesma idade no Brasil, leva o clube catalão a abrir mão de preocupações para poder centralizar seus objetivos na problemática tática. Um jogador espanhol que passou por um processo de seleção adequado, que passa por uma cultura de jogo consistente, que não muda de dois em dois anos, que não tem sua individualidade rompida pela necessidade de vitória de um treinador que só pensa em sua auto-promoção, tem uma capacidade maior de absorver o treinamento do que um jogador que não está inserido nessa atmosfera propícia para o desenvolvimento gradual de todos os aspectos, técnicos, táticos, físicos e psicológicos.

    Segundo Xavi ao Universidade do Futebol, os benefícios para a equipe principal do clube são evidentes. “Jogar de forma inteligente, passar para o pé direito de um jogador destro, ou para o esquerdo de um canhoto. Antes de receber a bola, já saber o que fazer com ela. Podem ver o resultado desse desenvolvimento, com oito ou nove jogadores-chave da equipa principal do Barcelona oriundos dos escalões jovens. Formam a base sob a qual a equipe é construída", declarou ainda em entrevista ao site.

Acesso em http://mariomarcos.wordpress.com/2011/05/04/a-arte-do-gonza-ii/
  Comentário de Cruijff após a vitória do Real Madri sobre o Barcelona da Copa do Rei de 2011. Afirmando a importância de se fazer o que se sabe fazer “Logo de entrada deve esquecer-se das batalhas dialéticas e quezílias. Não é o seu estilo, e aí perderá sempre. Deve trocar a bola o máximo de tempo possível, e da forma mais simples. Isso passa pelo mais básico. Um toque é sempre melhor que dois. Mais velocidade na circulação de bola, com maior concentração e mais linhas de passe. Não devem preocupar-se com quem é o árbitro, nem se a relva está alta. Devem preocupar-se com a profundidade, algo em que o Villa é fundamental. Sem profundidade o jogo estreita, e há mais perdas de bola e conseqüentes contra-ataques”. Ele deixa claro que quando se foge de uma característica tão inerente ao clube, perde-se não apenas a identidade, mas sim os benefícios de uma cultura de jogo adquirida ao longo de muitos anos.

Bom, mais uma vez, entramos no dilema, como aplicaremos a metodologia vencedora do clube espanhol no Brasil, aqui, em nossa realidade, com jogadores com altíssimo nível técnico, mas com problemas táticos que às vezes parecem irremediáveis. Como resolveremos esse problema? Bom, talvez retirando totalmente os trabalhos físicos analíticos e/ou integrados. Será? Ou melhor, excluiremos os nossos talentos técnicos que por sua vez não tem o mesmo entendimento do modelo de jogo, pois estes por muito tempo receberam informações do tipo “vai dentro dele”,mas pode também cortar os zagueiros que não marcam a zona, pois estes também não tiveram os estímulos adequados pois é mais fácil “pegar o atacante até o fim”.

Enfim, não podemos mudar 50 anos de história e um ou dois anos de radicalismo, ainda mais quando nesses “50 anos” foram ganhos muitos títulos, e construiu-se uma história e formou-se uma cultura, mas podemos adaptar nossos treinos, para que a longo prazo possamos ter resultados mais consistentes. Por exemplo, o preparador físico, foi durante anos a referência científica dentro da comissão técnica, o crescimento da tecnologia, está sendo usada para o desenvolvimento dos parâmetros e controles físico, levou a predominância desta área sobre as demais em todos os métodos de treinamento.

Levando em consideração a grande maioria dos estudiosos do método espanhol, fica claro que o perfil e cultura da onde o jogador está inserido é fundamental e determinante para a definição do processo de desenvolvimento do método de treino. Tendo em vista que o próprio Barcelona, busca estas características de perfil em seus atletas mesmo na base. E juntamente com um processo de desenvolvimento adequado, individualizado a sua realidade, apresentando uma linha contínua de trabalho, aonde uma forma de jogar, baseada e princípios que são fundamentais os resultados são sem dúvida de estrema consistência.



Referências
http://www.maisfutebol.iol.pt/espanha/cruyff-barcelona-real-madrid-champions-league-maisfutebol/1248728-1486.html
http://espn.estadao.com.br/barcelona/noticia/211033_GUARDIOLA+CHEGA+A+12+TITULOS+SUPERA+CRUYFF+E+VIRA+MAIOR+VENCEDOR+DO+BARCELONA
http://www.universidadedofutebol.com.br/2010/10/2,14338,XAVI+ENALTECE+FILOSOFIA+FUTEBOLISTICA+DO+BARCELONA.aspx

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Barcelona, o triunfo de uma filosofia

Olá pessoal, após o II Seminário de Futebol realizado no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, em uma parceria com a Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, aonde se falou muito com uma grande riqueza de detalhes sobre a formação de atletas, sobre as categorias de base. E como não poderia deixar de ser, o clube referência hoje em formação, o Barcelona foi o ponto principal dos debates. Então ao elaborar uma pesquisa, achei uma reportagem no site português Relvado, aonde Gonçalo Moreira, autor da matéria, em dezembro de 2010 apontava "La Masia" com um dos fatores para o sucesso do equipe catalã. La Masia atualmente é um dos, ou senão, o mais moderno centro de formação de jogadores de futebol, que associada ao método de treino aplicado no Barça mostra-se uma fábrica de craques, que esse ano tem três jogadores indicados para a bola de outo.
Minha intenção era reproduzir alguns trechos do texto, mas gostei muito da reportagem e resolvi mostra-la na integra. Abraço a todos e boa leitura.

http://relvado.aeiou.pt/diversos/barcelona-triunfo-uma-filosofia

La Masía é por estes dias tema de conversa no planeta futebol, embora poucos saibam o que é, onde fica e como funciona. Partimos por isso à descoberta da fábrica de talentos do Barcelona, que este ano colocou Xavi, Iniesta e Messi como finalistas da Bola de Ouro.
Explicar o futebol do Barcelona é ir a La Masía, nome da residência onde vivem dezenas de jovens jogadores do clube catalão. Mas afinal o que é uma Masía? Este é um termo utilizado para designar uma típica casa rural, um ambiente que poucos esperam encontrar na zona urbana de Barcelona, mas que sucessivas direcções culés procuraram preservar ao longo dos últimos 30 anos e que de certa forma contribui para o misticismo do local.
La Masía - Academia do BarcelonaA Masía de Can Planes, nome do lar onde vivem actualmente 58 jovens, foi originalmente comprada pelo clube em 1979 para servir de gabinete aos arquitectos que projectaram o Estádio Camp Nou e mais tarde convertida pelo presidente Josep Lluís Núñez na casa das futuras estrelas do clube catalão. Toda a propriedade “cheira” a Catalunha. A traça original e o ambiente acolhedor são perfeitos para que os miúdos se sintam o mais em casa possível, tendo em conta que a maioria se encontra longe das respectivas famílias.
Como se vive em La Masía?
Para quem entra esta é uma casa como tantas outras, com a diferença de que aí vive uma grande família, a blaugrana. Com uma cozinha pequena e várias salas comuns onde se joga de tudo um pouco, esta é uma residência de portas abertas, mas onde as crianças são controladas por responsáveis do clube.
Os dias são passados de forma normal, ora com momentos de estudo, ora com actividades de ócio puro, como manda a idade dos residentes. O bónus para estas crianças é o facto de poderem treinar numa das melhores escolas de futebol do mundo.
Para os atletas que entram no templo sagrado da formação culé o sentimento catalão é algo extra, que vai crescendo com o tempo. Beijar o escudo, apontar para o emblema, são gestos comuns nos campos de futebol de todo o mundo, mas que na Catalunha ainda têm significado, especialmente por todo o sentimento de autonomia (a roçar a independência) que se vive na região em relação ao poder central, que na vertente desportiva é personificada pelo arqui-rival Real Madrid.



Regras a cumprir em La Masía
Nas paredes desta casa abundam as fotografias de miúdos, equipas, memórias de um passado recente que marcam a actualidade do futebol contemporâneo. As feições de criança não enganam e da turma de 1996 podem distinguir-se Andrés Iniesta, Victor Valdés, Pepe Reina e Carles Puyol - todos eles campeões do mundo na África do Sul.
Iniesta e Albert Benaiges (Formação do Barcelona): LusaA história de Iniesta é curiosa porque aos 12 anos esteve a ponto de assinar com o Real Madrid, o que não aconteceu porque os pais do jovem Andrés não queriam o filho a viver em Valdebebas, centro nevrálgico dos merengues que se localiza num subúrbio da capital. Em Barcelona, por outro lado, a família Iniesta encontrou um ambiente familiar e tranquilo para que o filho pudesse crescer como jogador, mas sobretudo como homem.
Um dos responsáveis pela ida de Iniesta para o Barcelona foi Albert Benaiges, coordenador do futebol jovem culé, que está para os catalães como Aurélio Pereira está para o Sporting. Ambos valem ouro e no caso de Benaiges a filosofia é simples quanto à evolução de um jogador de futebol: “numa primeira fase, dos iniciados para baixo, privilegiamos a formação pessoal antes do futebol. Na segunda iniciamos o chamado aperfeiçoamento, aí deve competir-se bastante, ainda que sem perder de vista a formação pessoal, porque nunca se sabe o que pode acontecer”, explica o homem forte das camadas jovens dos catalães ao site futbolbalear.es. 
Made in Barcelona
Competir, competir, competir. A partir de uma certa idade, a palavra de ordem no Barcelona é para jogar, fomentando sempre o contacto com a bola e um estilo de jogo vincadamente ofensivo, que está institucionalizado e que vem de baixo para cima. Esta filosofia é a origem do jogo bonito blaugrana, o chamado tiki-taka, um estilo de futebol que seduz, inspira, choca e que já está a marcar uma nova era do futebol mundial.
A aposta na formação é uma visão de futuro, que pretende vir a estabelecer a médio prazo um plantel com 65 por cento de jogadores provenientes das bases. No entanto, o facto de ter tido uns últimos anos vintage, faz com que o processo esteja acelerado e que no Clássico frente ao Real Madrid (5-0), Pep Guardiola tenha colocado em campo 10 jogadores da formação, sendo que oito foram titulares (Valdés, Piqué, Puyol, Busquets, Xavi, Iniesta, Pedro, Messi).
Com esta premissa em mente, o Barcelona forma com qualidade mas não tem maneira de absorver tudo o que produz, pelo que se tornou um importante centro de exportação de talentos para as melhores Ligas da Europa. Só esta temporada, são 41 os jogadores que actuam nas divisões de topo e que saíram de La Masía, como aconteceu há alguns anos com o central Gerard Piqué, que ingressou nos catalães aos 10 anos, saiu para o Manchester aos 17 e que entretanto regressou com 21 anos para ocupar um lugar no eixo da defesa.
Cesc Fabregas (Arsenal): wikimediaO chamamento provocado pelo orgulho catalão é algo difícil de explicar, mas que deve ser tido em conta. Um dos rumores mais fortes do mercado de transferências é o interesse que o Barça tem em recuperar uma pérola que lhe foi “roubada” precocemente: Cesc Fabregas. O médio esteve na Catalunha até aos 16 anos, quando foi recrutado de forma hostil por outro clube inglês, o Arsenal. Os Gunners resistiram para já a uma primeira abordagem do Barcelona, mas será inevitável que no futuro Fabregas volte ao ponto de partida, quem sabe mesmo se para assumir as funções de Xavi (que está com 30 anos) no meio-campo.
Mas como fazer a transição entre as camadas jovens e o plantel profissional? A resposta reside na sensibilidade e no acompanhamento que é feito por parte do treinador da equipa principal, uma das principais características de Pep Guardiola, ele próprio um produto saído de La Masía. Essa atitude de querer aproveitar o que sai da formação é típica de um homem que passou por todas as fases do processo: foi aluno, jogador, referência e é agora professor. Sem esta capacidade que Guardiola revela de querer maximizar os recursos da casa, torna-se mais difícil produzir talentos, que naturalmente precisam de tempo para crescer.
La Masía do Século XXI
A pensar no futuro está já em marcha a nova residência para jovens, um moderno centro localizado em Sant Joan Despí, a 5 km do Camp Nou, onde foi criada recentemente a Cidade Desportiva Joan Gamper, local de treino diário de todos os escalões do futebol barcelonista. O novo edifício será bem diferente do actual e vai aumentar em termos de capacidade, passando a contar com 82 quartos múltiplos, num total de 6000 metros quadrados (actualmente dispõe de apenas 600 m²).
Orçamentada em cerca de 8/9 milhões de euros, esta Masía moderna pretende fomentar o relacionamento entre os vários funcionários do clube, especialmente entre jogadores dos vários escalões. A blindagem psicológica dos craques é crucial e por isso desde cedo que os mais novos vêem como os profissionais convivem diariamente com a pressão de adeptos, média e todos os interesses que gravitam à volta do planeta futebol.
Para trás ficam 30 anos de um trabalho que já ganhou um lugar na história do futebol e que promete continuar, agora numa versão reciclada. Depois da primeira Bola de Ouro conquistada por Leo Messi em 2009, a formação blaugrana voltará este ano a festejar, quando for anunciado o vencedor a 10 de Janeiro. Xavi, Messi ou Iniesta? Independentemente de quem vier a ganhar, é a filosofia do Barcelona que está a ser premiada.
Fotos: Lusa (1 e 3) e wikimedia (2 e 4)

Acessado em http://relvado.aeiou.pt/diversos/barcelona-triunfo-uma-filosofia

domingo, 21 de agosto de 2011

Analítico, Integrado ou Sistêmico?

A maior discussão atualmente no futebol brasileiro, diz repeito aos métodos de treinamento. Quando vemos o Barcelona jogando, com todos seus princípios bem definidos, com a sua efetividade de seu modelo de jogo, e principalmente a qualidade dos jogadores formados dentro do próprio clube. Mas aqui no Brasil, aonde temos um contexto bem diferente do espanhol, uma cultura de jogo diferente, um aspecto social cultural totalmente distintos e o que para mim é o principal ponto, o tempo em que o processo de treinamento já vem sendo aplicado no Barcelona. Não se muda uma cultura de uma hora para outra, não se muda comportamento da noite para o dia, por isso precisamo de uma mudança gradual, encontrando um equilíbrio entre os fatores envolvidos para a performance, como táticos, técnicos, físicos e psicológicos.
Temos historicamente três tendências metodológicas ao longo do processo de treinamento do futebol, a originária do leste europeu que tem por característica a divisão por períodos, picos de performance, em determinados momentos competitivos. A segunda surgiu na América do Norte e Norte Europeu que direcionava seus objetivos em capacidades físicas, dividindo-as separadamente. Estas duas tendências metodológicas misturam-se em alguns momentos, e podem ser denominadas de Método Analítico, que propõem uma divisão por partes de um contexto geral. A terceira tendência vem trazendo a integração das partes, física e técnica, surgindo na América Latina o treinamento integrado que buscava em trabalhos físicos, com o uso da bola, a exigência encontrada no jogo. A última tendência metodológica, que tem como berço Portugal, denominada Periodização Tática, que tem por objetivo principal uma forma de jogar, baseada em princípios de jogo, que claro, prioriza em todos os sentidos a questão tática. Procura em todos os momentos do treino, um entendimento tático da forma de jogar, e dentro destes trabalhos táticos encontra-se os aspectos técnicos, físicos e psicológicos.
Atualmente o entendimento do jogo, as questões relacionadas ao modelo de jogo, inerentes ao entendimento dos jogadores a uma cultura do jogar. Aonde o mais importante é distribuir no tempo a aquisição de comportamentos táticos (princípios e sub-princípios) e estratégicos inerentes a uma determinada forma de jogar, com base em um modelo de jogo atual, com subjacentes arrastamentos das dimensões físicas, técnicas e psicológicas. Entende-se por modelo de jogo um corpo de idéias, relacionados como uma determinada forma de jogar, constituindo assim como um “perfil” de jogo da equipe (GRAÇA e OLIVEIRA, 1994).
A principal barreira da Periodização Tática no Brasil, talvez seja o vínculo cultura que temos com as questões físicas, e com a necessidade que criamos e de termos números concretos, valores de performance, de onde estamos e aonde podemos chegar dentro de um universo físico, e até, aonde estes marcadores puramente biológicos podem contribuir para o sucesso coletivo?
De forma geral podemos dizer que metodologicamente o futebol até hoje é trabalhado sobre três bases metodológicas, que em alguma parte da história foi estudada, analisada e também vencedora, e por isso tornou-se referência, ou melhor, tendência por determinado tempo.
Marisa, 2006 sita Morin (1997) que se refere a sistema, como um todo, constituído pela relação de seus constituintes. Neste segmento, o “jogar” expressa às relações de cooperação entre os colegas e de oposição com os adversários. De acordo com esta concepção, o jogo é um sistema de “sistemas”. Quando falamos em sistemas a mesma autora, fala em globalidade, interação, organização e finalidade.
Mas até aonde o sistêmico abrange todos os requisitos do jogo. Ou melhor, até aonde o analítico pode contribuir para a performance do todo. Ou será que para obter uma metodologia mais próxima do ideal teremos que “integrar” o analítico com sistêmico?


Mas e a performance no futebol? Como temos o melhor resultado? Bom, talvez não se chegue a esta resposta, mas precisamos entender todas as linhas metodológicas para poder assim, construir não só uma forma de jogar, mas sim para uma maneira de aplicar nossas idéias sobre futebol.
Mesmo com inúmeras pesquisas sobre o esforço físico requerido no futebol, ainda hoje encontramos divergências entre os autores sobre este assunto. Isso se dá particularmente pela diversidade de movimentos envolvidos durante um jogo de futebol. Durante uma partida um jogador realiza cerca de 1000 atividades diferentes, com uma pausa em média de 6s, essas atividades abrangem trocas de direção e ritmo (agilidade), exercícios de habilidade de jogo, e na perseguição aos adversários dentro do jogo (REILLY, 1976 apud REILLY, 2000). O Treinamento no futebol deve refletir a variedade de movimentos que englobam uma partida (GODIK, 1996). Rui Faria, treinador adjunto de Mourinho a vários anos, disse certa vez em uma entrevista que na Periodização Tática não existe jogador com baixa capacidade física, ou mal preparado fisicamente, mas sim, apenas jogadores não adaptados ao modelo de jogo da equipe.
Garganta e Pinto em 1994 já afirmavam que ao longo do jogo de futebol, os fatores de natureza técnica revestem-se de extrema importância, pois são eles que permitem ao jogador responder aos problemas táticos decorrentes do próprio jogo, o futebolista utiliza uma vasta gama de recursos motores específicos, genericamente designados por técnica. Entende-se por modelo de jogo um corpo de idéias, relacionados como uma determinada forma de jogar, constituindo assim como um “perfil” de jogo da equipe (GRAÇA e OLIVEIRA, 1994).

Mas alguns cuidados devem ser levados em consideração quando se trata de uma mudança, ainda mais com mudanças metodológicas, toda mudança quando é feita de forma rápida, radical ou brusca, os resultados são instáveis, e como uma mudança de comportamento requer tempo, para que se torne um hábito, os resultados podem não aparecer a curto ou em médio prazo. Casarin (2010), diz que, quando um treinador chega a um clube, além de analisar sua condição física-estrutural-planejamental (materiais, campos, recursos financeiros, competições), observa seus jogadores e pensa na melhor forma de pô-los a jogar (sua concepção de jogo) em cima da cultura de futebol do clube. Essa é a lógica. Certo ou errado? Errado. Poucos dos nossos clubes e treinadores respeitam suas questões históricas e culturais, e a cada semestre modificam sua forma de jogar, não adquirindo uma cultura de clube necessária para criar uma identidade futebolística. Essa constatação é um dos vários “cancros” do nosso futebol e acaba refletindo nas categorias de base.

Quando falamos na mudança metodológica, temos que levar em consideração que a parte tática no Brasil, precisa sofrer uma evolução, o desenvolvimento tática não acompanhou a evolução de outras áreas, como a preparação física, medicina esportiva, fisioterapia, nutrição e psicologia, além de todo o aparato tecnológico que norteia toda essa evolução. A periodização tática, a meu ver, traz essa evolução tática que o futebol brasileiro precisava, mas sem a marginalização das outras áreas. Silva e Floriano, 2010, nos trazem a idéia de que o treinamento físico especifico atualmente se divide em dois momentos, o primeiro é que o treinamento físico não está mais desvinculado do contexto do jogo, ou seja, o “físico” está auxiliando no cumprimento de uma tarefa técnica, que por sua vez está resolvendo um “problema” tático, que por sua vez necessita de um físico para se expressar enquanto ação; assim é inconcebível pensar no físico desvinculado da intenção tática. No segundo momento, o treinamento dito “físico” pode ser pensado enquanto meio auxiliar de preservação do “agente” responsável por executar uma ação que já se estabeleceu previamente no sistema cognitivo. 
Mas até onde trabalhos analíticos podem trazer benefícios ao modelo sistêmico? Quando falamos sobre isso, temos que nos reportar ao entendimento do jogo, na capacidade que atleta/jogador tem de identificar, analisar e executar uma ação, que é feita sobre uma escolha. Alguns autores trazem que quando o atleta/jogador chega a um determinado nível de fadiga essas escolhas são prejudicadas. BertolassiI, 2007 diz que para executar uma resposta motora de maneira satisfatória dependemos em grande parte do tempo disponível entre a pista visual e a resposta, pois além da programação motora, uma resposta adequada exige também o ajuste temporal dos movimentos. No futebol este tempo, entre a pista visual e a resposta motora, é curtíssimo. O mesmo autor traz que atletas com menor fadiga apresentam resultados melhores quanto a resposta motora e tomada de decisão. Bertolassi, nos mostra esses resultados em um teste visual, em um computador. Então, em um contexto de jogo, ainda temos outros fatores a serem considerados, como velocidade e trajetória da bola, adversários, vento, luz. Então esse decréscimo deve ser ainda maior, pois o número de fatores a serem considerados também é maior. 
O que não podemos esquecer é a individualidade de cada um de nossos jogadores, e vê-los dentro de um contexto geral, montar nosso modelo de treinamento, seja ele analítico, integrado ou sistêmico. Pois a meu ver só podemos construir um método de treino após conhecermos todas as necessidades do nosso grupo de trabalho. Claro que cada comissão técnica tem seus princípios, e conceitos, que se repetem ao longo dos treinamentos, mas a formação de uma equipe deve passar principalmente pelas características individuais, e depois, montar um modelo de jogo aonde essas individualidade possa funcionar para o sucesso do todo.
Mais uma vez fica claro que devemos buscar dentro de cada método o melhor para determinado grupo. Devemos ter um grupo com um bom entendimento tático, com boa condição técnica, e níveis físicos satisfatórios para suportar as exigências do jogo, sejam elas físicas ou psicologias. E para isso não podemos esquecer do indivíduo como um todo, que pensa, que interpreta e executa ações, e para isso precisa estar biologicamente e psicologicamente apto para tudo.



sábado, 13 de agosto de 2011

Efeitos dos treinamentos de endurance e intervalado em marcadores do metabolismo oxidativo, oxidantes, antioxidantes e lesão muscular

http://www.efdeportes.com/efd99/metab.htm

Dr. Claudio Cesar Zoppi*
Dr. Armindo Antonio Alves**
Dr. Leonardo dos Reis Silveira**
Dra. Lucia Pereira da Silva**
Dra. Denise Vaz de Macedo**



Gostei muito desse artigo, principalmente pelos controles bioquímicos apresentados, do que pelos resultados apresentados. Os resultados são diretamente ligados ao tipo de trabalho aplicado, do que pela parte biológica ou diferenças entre as categorias. Geralmente o categoria JR já apresenta um grande número de atletas já maturados, levando a igualdade de condições. Em nossa pré-temporada, tivemos um aumento significativo nos limiares após a pré-temporada na categoria SUB-20.

Resumo:
O treinamento físico induz aumento nos níveis de estresse oxidativo, fenômeno que poder levar a adaptação ou danos musculares de origem oxidativa. Neste estudo, seguimos alguns biomarcadores no músculo sóleo e no sangue, em animais submetidos a dois protocolos distintos de exercício, endurance (CT) e intermitente (IT), com o objetivo de verificar se os biomarcadores escolhidos eram sensíveis em demonstrar o grau de estresse produzido pelo exercício. Vinte e quatro ratos foram divididos nos grupos sedentário (SED), CT e IT e submetidos, em ambos protocolos a duas fases distintas (fase I e II) em relação a sua intensidade e duração. Hemoglobina, lactato e a atividade da enzima creatina quinase (CK) foram dosados no sangue. A atividade da enzima citrato sintase foi dosada no músculo sóleo; a atividade das enzimas antioxidantes glutationa redutase e catalase foram dosadas no músculo sóleo. Ainda foi medida a concentração de substâncias reativas ao ácido tiobarbitúrico (TBARs) na urina dos animais. Nossos resultados indicaram que: 1) O estresse induzido por CT e IT induziu diferentes respostas adaptativas; 2) Em IT, principalmente quando aplicadas cargas progressivas, é potencialmente lesivo, devido ao alto de nível de ataque oxidativo às estruturas intracelulares; 3) Biomarcadores de estresse oxidativo sistêmicos, combinados com a dosagem da atividade da CK podem traçar um perfil do nível de estresse induzido ao músculo sóleo pelo exercício físico.
    


Introdução
    O treinamento esportivo se baseia no princípio da adaptação, onde as cargas de treinamento são responsáveis pela quebra da homeostase intracelular e assim, capaz de sinalizar as adaptações desejadas (BRUIN et al., 1994; KUIPERS, 1998). O estresse oxidativo, condição na qual a produção de espécies reativas de oxigênio (EROs) supera a capacidade antioxidante intracelular de eliminá-los, é uma das formas de estresse induzida pelo treinamento esportivo (SJODIN et al., 1990; JI, 1999). Nesse sentido, estudos mostram a produção de espécies radicalares, tais como radical ânion superóxido (-O2.), peróxido de hidrogênio (H2O2) e radical hidroxila (OH.) durante a contração muscular (DAVIES et al. 1982; POWERS & LENNON, 1999).
    O aumento do fluxo de elétrons da cadeia respiratória mitochondrial parece estar diretamente envolvido nesse processo, bem como o aumento na concentração do substrato da enzima xantina oxidase (SJODIN et al., 1990; JI, 1999; JI & LEICHTWEISS, 1997; TIIDUS, 1998). Outros autores também mostram que a alta atividade dos neutrófilos, macrófagos e citoquinas presentes no processo inflamatório, responsável pela remoção e reparo de estruturas celulares danificadas após o exercício físico, também contribuem para a produção de EROs (CANNON et al., 1991; FIELDING et al., 1993; HESSEL et al.,2000; SEN, 1995).
    Dados da literatura mostram que as EROs estão relacionadas a danos oxidativos a estruturas intracelulares tais como; lipídeos de membrana, proteínas e inclusive o DNA (SJODIN et al., 1990; DAVIES et al. 1982; HALLIWELL & GUTTERIDGE, 1998). Assim, especula-se que as EROs possam desencadear as lesões musculares (JI, 1999; TIIDUS, 1998; HESSEL, 2000). O estresse imposto às células musculares pode levar a dois processos distintos: adaptação ou "overtraining" (JACKSON, 1999; SMITH, 2000; SMOLKA et al., 2000). Adaptação e a conseqüente melhora no desempenho esportivo acontecem quando o estresse é seguido por um tempo de regeneração adequado, através do processo conhecido como supercompensação (BRUIN et al., 1994; VIRU, 1984; KUIPERS, 1998). O treinamento de alta intensidade parece ser a melhor forma de melhorar o rendimento esportivo (ALESSIO, 1993; CRISWELL et al., 1993). No entanto, estar bem adaptado significa ter as fibras musculares aptas a suportar o estresse imposto pelo exercício, isto é, sua intensidade, duração e freqüência, fatores que podem resultar em fadiga e ainda levar a lesões musculares (POWERS & LENNON, 1999). A imposição de cargas de treinamento que excedem a capacidade do atleta de se regenerar leva ao aparecimento prematuro dos processos de fadiga. Tal estratégia, quando adotada de forma crônica, pode levar à instalação do processo inicial do "overtraining", denominado pela literatura de "overreaching" (KUIPERS, 1998; GLEESON, 2000).
    Desde os primeiros estudos que propuseram o exercício físico extenuante como indutor de danos oxidativos em vários tecidos (DAVIES et al., 1982; DILLARD et al., 1978), um considerável corpo de conhecimento vem-se acumulando também a respeito das adaptações induzidas pela atividade física nos sistemas de defesa antioxidante (POWERS & LENNON, 1999; SEN, 1995; LIU et al., 2000). No entanto, é preciso destacar que ainda se conhece muito pouco a respeito da taxa de regeneração, processos adaptativos e quantidade ideal de estímulos de alta intensidade que devem ser aplicados nos programas de treinamento. Recentemente, demonstramos que os treinamentos de endurance (longa duração, alta intensidade) e intervalado (curta duração, alta intensidade) induzem adaptações diferenciadas sobre as enzimas citrato sintase (CS), glutationa redutase (GR) e catalase (CAT) no músculo sóleo (SMOLKA et al., 2000). Neste estudo, mostramos que o treinamento de endurance (CT) foi mais eficiente em aumentar a atividade das enzimas antioxidantes, enquanto o treinamento intervalado (IT) se mostrou mais eficiente no aumento do metabolismo oxidativo, medido pela CS (SMOLKA et al., 2000). Tais dados sugerem fortemente que a taxa de estresse oxidativo pode ser modulado pela intensidade, duração e tipo de exercício (SEN, 1995; SMOLKA et al., 2000). Além disso, ALESSIO e colaboradores (2000) também demonstraram a existência de um limiar de esforço, a partir do qual o estresse oxidativo aumentaria dramaticamente. Segundo os autores, esse limiar parece estar relacionado com o protocolo de treinamento e as condições individuais do atleta.
    Neste estudo, seguimos o perfil adaptativo de biomarcadores de estresse oxidativo, enzimas do sistema de defesa antioxidante e do metabolismo oxidativo no sangue e também no músculo sóleo de ratos, por oito semanas, de dois protocolos distintos de treinamento, CT e IT. O objetivo foi verificar se os biomarcadores escolhidos seriam capazes de detectar o grau de impacto produzido pelos protocolos de treinamento no músculo, antecipando, ou não, o sucesso do processo adaptativo.

Materiais e métodos
Animais: Os experimentos foram conduzidos utilizando ratos da linhagem Wistar com dois meses de idade. Os animais foram mantidos em ciclo invertido de luz 12h claro-escuro, a 22o C sendo oferecido durante todo o experimento, água e ração específica para ratos à vontade. Todos os procedimentos experimentais foram aprovados pelo comitê de ética para o uso de animais em pesquisa do instituto de biologia da UNICAMP.
Protocolos de treinamento. Vinte e quatro ratos que se mostraram aptos a correr em esteira elétrica foram distribuídos ao acaso entre os grupos experimentais sedentários (SED), CT e IT, contendo cada grupo um n de 8 animais cada. As características dos protocolos de CT e IT estão mostrados na tabela I. Ambos os protocolos se apresentam divididos em duas fases com duração de um mês cada. A Fase I onde velocidade e duração aumentam gradativamente, e a Fase II onde os mesmos parâmetros permanecem constantes. Esta estratégia foi utilizada para simular um processo de treinamento, que contém um período de aquisição e outro de manutenção.
    Quarenta e oito horas após o final da última sessão de treino, os animais foram sacrificados e as amostras de sangue e músculo dos animais dos grupos IT e CT coletadas. Os animais do grupo SED foram sacrificados e as amostras coletadas após as oito semanas do período de treinamento, a fim de evitar alterações induzidas pelo tempo nas variáveis estudadas.
 

    Para dosagem de lactato, hemoglobina (Hb) e atividade da enzima creatina quinase (CK) (EC. 2.7.3.2) plasmática foram coletadas 150 µL de sangue da calda dos animais semanalmente, imediatamente após o término da última sessão de treinamento da semana. Esses três parâmetros foram dosados por espectrometria de refletância através de fitas reativas específicas, usando os aparelhos Accusport (FELL et al., 1998; BISHOP, 2001), no caso do lactato e Reflotron a hemoglobina e atividade da CK.
Preparação das amostras de músculo. Os Animais foram anestesiados com uma injeção intraperitoneal de hidrato de cloral 10% (p/v), com 0,3 mL por 100g de peso. Foram retirados os músculos sóleo de ambas as pernas, cuidadosamente dissecados e imediatamente congelados em nitrogênio líquido e mantidos a -70o C até que as análises fossem conduzidas. Os animais então foram sacrificados por decapitação. Trinta miligramas de amostra dos músculos foram picados em pequenos pedaços com tesoura e homogenizados em 2 mL de meio frio (8o C), contendo 440 mM sacarose, 50 mM MOPS, 0,01 mM PMSF e 100 mM EDTA, pH 7.2. Para a preparação do homogenato, foi utilizado o aparelho Polytron em sua maior velocidade por 30 segundos. Neste homogenato foram dosadas as atividades das enzimas CS (EC 4.1.37), GR (EC 1.6.4.2) e CAT (EC 1.11.1.6). Essas enzimas foram escolhidas por mostrarem modulação induzida pelo treinamento físico (SMOLKA et al., 2000). Todos os ensaios enzimáticos foram feitos em duplicata.
Ensaios enzimáticos. A atividade da CS foi medida em meio contendo 0.1 mM de DTNB e 0.3 mM acetil CoA monitorando a queda da absorbância a 412 nm após a adição de 0.5 mM oxaloacetato (SRERE, 1969). A atividade da CS foi expressa em UI/mg tecido. A atividade da GR foi medida em tampão fosfato 0.2 M (pH 7.0), contendo ainda 2 mM EDTA, 0.1 mM NADPH e 0.75 mM DTNB. Para iniciar a reação, foi adicionado 1 mM de GSSG e a absorbância foi monitorada a 240 nm (SMITH et al.,1988). A atividade da GR foi expressa em UI/mg proteína. A atividade da CAT foi medida em tampão fosfato 50 mM (pH 7.0), monitorando a queda da absorbância a 240 nm durante 30 segundos após a adição de 10 mM de H2O2 (AEBI, 1984). A atividade da CAT foi expressa em UI/mg tecido.
Amostras de urina e ensaio de substâncias reativas ao ácido tiobarbitúrico (TBARs). Uma vez por semana, após a última sessão de treino, os animais eram colocados em gaiolas metabólicas por 24 horas. A urina era então coletada em toluene e armazenada a - 70oC até sua utilização para os ensaios de TBARs segundo YAGI (1987). Uma curva padrão de tetraetoxipropano foi utilizada como padrão para efetuar os cálculos da concentração de TBARs. A concentração de TBARs foi normalizada através da concentração de creatinina (JENKINS et al., 1992), que foi determinada utilizando um kit fotométrico Boehringer Mannheim específico.
Análise estatistica. Os dados estão expressos em média ±EP indicado por barras verticais nas figuras. Os grupos são compostos por oito animais (n=8). Foi utilizado o programa GraphPad Instat® (San Diego, CA) para aplicar o teste de ANOVA e o teste de Tukey como pós-teste, estabelecendo P <0.05 como limite confidencial.

Resultados

Perfil da intensidade ao longo do treinamento. A intensidade empregada semanalmente no treinamento foi inferida pela quantificação da concentração de lactate plasmático nos grupos experimentais. A figura 1 mostra que os protocolos de treinamento recrutaram predominantemente vias metabólicas de ressíntese de ATP diferentes. Estes dados mostram que a principal via recrutada no grupo CT foi a via oxidativa ou metabolismo aeróbico, indicando que este protocolo foi menos intenso na maior parte do tempo quando comparado ao protocolo de IT. O oposto foi observado no protocolo de IT, que durante quase todo o período de treinamento mostrou concentrações de lactato significativamente maiores comparadas aos grupos CT e SED, comportamento já esperado para um protocolo de exercício de alta intensidade. Além disso, observamos ainda que ambos os protocolos induziram sobrecarga progressiva na fase I e que essa fase foi mais intensa quando comparada à fase II.






Adaptações induzidas pelos treinamentos de endurance e intervalado no metabolismo oxidativo.
     A figura 2A mostra a variação na atividade da CS, nos três grupos experimentais (SED, CT e IT), medida ao final das duas fases do treinamento. Podemos observar que, após a fase I, ambos os protocolos se mostraram eficientes em aumentar significativamente a atividade da CS. Ao final da fase II, no entanto, encontramos atividade significativamente maior da CS no grupo IT em relação aos grupos CT e SED. As alterações na concentração de Hb (Figura 2B) mostram um aumento significativo (p<0.05), atingindo seu pico máximo na quarta e quinta semanas de treinamento nos grupos CT e IT respectivamente, seguido pela estabilização em valores abaixo do atingido no pico máximo, ao final da fase II, embora se mantendo acima (p<0.05) dos valores encontrados no grupo SED.












Adaptações induzidas pelo treinamento de endurance e intervalado nas enzimas do sistema antioxidante.
    As figuras 3 A e B mostram as adaptações induzidas nos biomarcadores do sistema enzimático de defesa antioxidante no músculo sóleo. A Figura 3 mostra que ambos os protocolos de treinamento induziram aumento significativo (p<0.05) nas enzimas GR e CAT quando comparadas ao grupo SED. No entanto, o grupo CT mostrou aumento mais efetivo das enzimas antioxidantes estudadas nas duas fases do treinamento.












Alterações induzidas pelo treinamento de endurance e intervalado nos níveis de peroxidação lipídica e dano muscular.
    A figura 4A mostra as alterações induzidas pelos protocolos de CT e IT na concentração de TBARs e na atividade da CK plasmática (figura 4B). Nossos dados mostram que, para ambos grupos treinados, houve um aumento significativo na concentração urinária de TBARs, que atingiu seu pico máximo ao final da terceira semana de treinamento (Figura 4A). Este aumento foi particularmente maior (p<0.05) para o grupo IT em comparação ao grupo CT e SED. Após atingir seu pico máximo, os níveis de TBARs tenderam a cair para próximo dos valores do grupo SED ao final dos protocolos de CT e IT. A cinética da atividade da CK plasmática, ao longo de oito semanas de treinamento, mostrou comportamento similar à concentração de TBARs (figura 4A). Para esta variável, no entanto, o pico máximo de atividade ocorreu entre a quarta e quinta semana, nos grupos CT e IT respectivamente.












Discussão
    Dados consistentes da literatura demonstram o aumento induzido pelo exercício físico nos níveis de estresse oxidativo (BRUIN et al., 1994; SJODIN et al., 1990; VINA et al., 2000; CANNON et al., 1990; TIIDUS, 1998; SMOLKA et al., 2000), fenômeno confirmado também por este estudo.
    A questão se este processo irá levar a adaptação dos sistemas fisiológicos envolvidos (JACKSON, 1999; SMITH, 2000) ou ao dano oxidativo excessivo, e em última instância, lesões musculares (SJODIN et al.,1990; HESSEL et al., 2000; TIIDUS,1998), é de extrema importância na aplicação de programas de treinamento.
    Estudos mostram que baixos níveis de marcadores de dano oxidativo se correlacionam com uma resposta adaptativa positiva e conseqüente melhora do condicionamento muscular ao esforço (JI,1999; RADAK et al.,1999). Algumas evidências demonstram, que a atividade física moderada induz aumento nas enzimas antioxidantes em músculo e também nas hemáceas (DUTHIE et al., 1990; POWERS et al., 1999), embora estudos anteriores sugiram que o nível de estresse oxidativo possa ser modulado tanto pela intensidade, como duração e ainda o tipo de atividade (SEN, 1995; SMOLKA et al., 2000).
    Dados com relação aos efeitos de atividades intermitentes de alta intensidade sobre os níveis de estresse oxidativo e atividade das enzimas do metabolismo oxidativo e sistemas antioxidantes são escassos, permanecendo questionáveis as adaptações induzidas por este tipo de atividade (ESSIG & NOSEK, 1997; HALLIWELL & GUTTERIDGE, 1998).
    Com o objetivo de estudar estas questões, neste trabalho, dividimos os protocolos de treinamento CT e IT em duas fases distintas (I e II) com intensidade e duração diferenciadas.
    A fase I teve como característica maiores intensidades e menor volume em ambos os protocolos de treinamento. Em comparação aos dois grupos, ainda na fase I, IT foi de maior intensidade e menor volume em relação ao CT, conforme mostra a concentração de lactato na figura 1 e também à distância percorrida pelos dois grupos experimentais durante esta fase. Já na fase II a concentração de lactato nos mostra que a intensidade foi similar, enquanto o volume de esforço, medido através da distância percorrida, executado pelo grupo IT foi ainda maior que o grupo CT. Portanto, a análise das duas fases distintas dos protocolos de treinamento nos dá uma noção do efeito da intensidade (fase I) e do volume (fase II) nos marcadores estudados.
    Neste sentido, nossos dados mostram que, para ambos os grupos de treinamento CT e IT, o aumento do volume e da intensidade empregados nos esforços induziram aumento nos níveis de estresse oxidativo, embora o protocolo de IT se mostrou mais eficiente como indutor de estresse. Tal fato ficou demonstrado quando observamos na fase I, onde a intensidade de esforço era mais alta, este protocolo induziu menor aumento na atividade das enzimas antioxidantes, acompanhado de maiores níveis de peroxidação lipídica e lesão muscular, mostrados pela concentração de TBARs na urina e atividade da CK plasmática.
    Os altos níveis de lactato no grupo IT demonstram que a taxa de utilização de ATP excedeu a capacidade de sua ressíntese mitocondrial, embora o fluxo de oxigênio nas fibras musculares estivesse elevado devido ao aumento em sua capacidade de transporte e utilização como mostrados nas figuras 2A e 2B.
    Nossos resultados confirmam ainda que, o estresse oxidativo causado pelo exercício de alta intensidade, ocorre na presença de oxigênio (SJODIN et al., 1990). Além disso, estes dados mostram que a alta disponibilidade de oxigênio em conjunto com alta capacidade oxidativa leva a uma intensa produção de EROs , superando a capacidade intracelular de detoxificação das mesmas (SMOLKA et al., 2000).
    Tal fato contribui para um maior aumento nos níveis de estresse oxidativo no grupo IT quando comparado ao grupo CT, situação que parece ser importante no aumento da enzima mitocondrial CS (SMOLKA et al., 2000).
    Estes dados estão em acordo com demais estudos, que provam ser o treinamento intervalado de alta intensidade um estímulo mais eficiente para aumentar a capacidade oxidativa intramuscular, incluindo a capacidade de oxidação de ácidos graxos, quando comparado ao treinamento de endurance (CHILIBECK et al., 1997; TERADA et al., 2004).
    A liberação de proteínas musculares (i.e. CK), que normalmente são incapazes de atravessar a membrana celular, reflete uma mudança nas características de permeabilidade da mesma, permitindo a passagem de moléculas de grande peso molecular como as proteínas (ORTENBLAD et al., 1991).
    Este fenômeno é normalmente associado pela literatura, como evidência de dano muscular (NOSAKA E NEWTON, 2002). É interessante destacar ainda que apenas o grupo IT mostrou correlação positiva (r = 0.92; P < 0.05) entre a concentração de TBARs, marcador de peroxidação lipídica e a atvidade de CK plasmática.
    Estes dados, nos permitem inferir que a sobrecarga progressiva, principalmente associada ao aumento da intensidade de esforço, induz maior aumento nos níveis de estresse oxidativo devido à combinação de uma maior capacidade oxidativa em conjunto com aumento menos eminente na atividade das enzimas antioxidantes, o que levou o grupo IT neste estudo, a estar mais vulnerável a lesões musculares de origem oxidativa.
    Nossa hipótese é, portanto, que o processo adaptativo deve estar em acordo com a demanda funcional das fibras musculares imposta pelo exercício físico. Em outras palavras, um protocolo de treinamento ideal não deve apenas aumentar a capacidade oxidativa muscular, mas também aumentar a capacidade de detoxificação de EROs produzidas durante o esforço.
    O aumento dessa capacidade seria atingido principalmente através do aumento na atividade das enzimas antioxidantes e dos demais mecanismos de proteção intracelular, tais como, a expressão das proteínas de estresse (SMOLKA et al., 2000).
    Nossos dados ainda mostraram que os marcadores escolhidos são sensíveis em demonstrar o processo adaptativo tanto no músculo sóleo quanto nas hemáceas, fato que pode ser observado ao final do treinamento.
    Concluindo, nossos dados permitem inferir que esforços executados em alta intensidade são mais eficientes em induzir aumento na capacidade oxidativa muscular, enquanto atividades de menor intensidade e maior volume parecem atuar de forma mais eficiente no aumento do sistema antioxidante enzimático e, ainda, que o acompanhamento dos marcadores estudados neste trabalho pode demonstrar o nível de estresse imposto pelo treinamento físico, o que se pode constituir numa ferramenta importante para garantir apenas o efeito adaptativo do treinamento evitando, assim, lesões musculares mais graves.

Abreviações utilizadas
EDTA: Ácido etilenodiaminotetracético
GSSG: Glutationa dissulfeto
MOPS: Ácido 4-Morpholinopropanosulfônico
NADPH: Adenina dinucleotídeo fosfato
PMSF: Fenil metil sulfonil fenazina
DTNB: Ácido 5,5'-Ditiobis-2-nitrobenzóico

* Laboratório de fisiologia do exercício, Faculdade Social da Bahia (FSBA). ** Laboratório de bioquímica do exercício (LABEX), Departamento de Bioquímica, IB, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). (Brasil)

Revista Digital - Buenos Aires - Año 11 - N° 99 - Agosto de 2006

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